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| "Preciso de ajuda!" é o título da minha primeira reportagem divulgada num meio de comunicação, neste caso no jornal Público, a 10 de dezembro. |
Sim, foi precisamente isto que a minha mãe exclamou no domingo de manhã, quando coloquei o meu telemóvel demasiado perto da cara dela e se deparou com a imagem que podem observar acima.
"Ora bem... mas tu não estás a tirar o curso?", questionam vocês cheios de razão. Estou, mais precisamente, encontro-me no 3º ano da licenciatura em Jornalismo, a questão é que tive a oportunidade incrível de ver um trabalho publicado naquele que é o meu jornal de referência.
"Mas que trabalho? Só conseguimos ler o título, a entrada e pouco mais..." - sim, mas pretendo, pela primeira vez, revelar alguns pormenores sobre o meu trabalho que incidiu na influência da Internet no comportamento dos e das jovens, nos distúrbios alimentares e em algo que é considerado tabu: a automutilação. Estava no último semestre do 2º ano, quando uma professora minha e grande jornalista, de seu nome Ana Leal, nos pediu que realizássemos uma reportagem de cariz social ou uma de investigação. Eu, Maria Moreira Rato, conhecida por ser tudo menos sã no que toca a desafios deste género, pensei: "Tenho umas ideias guardadas há tanto tempo... Não sei como se materializariam, mas vou pensar".
Durante algumas aulas, observava os discursos assertivos e coerentes dos meus colegas, que pareciam (e tinham, efetivamente) tudo planeado e iam atualizando a professora acerca do rumo que os seus trabalhos estavam a tomar. Eu permanecia calada e olhava para baixo, porque apesar de ter a certeza daquilo que queria fazer, não sabia se teria coragem para tal. No dia 1 de junho, sentei-me na minha secretária e disse: "Tenho de fazer isto. Agora". Comecei por imaginar que tipo de personagem seria atraente para os cyberbullies, criei a sua personalidade e fiz um esboço dos seus sonhos e após uma longa pesquisa, cheguei à conclusão de que não poderia ser uma "jornalista" undercover apenas no Facebook ou numa plataforma dedicada aos distúrbios alimentares. Para que isto ficasse minimamente bem feito, a minha estratégia teria de ser transversal a quase todas as redes sociais.
E foi assim que, com a Kaylee Hodge, passei uma semana na mente de uma adolescente anoréxica, bulímica, automutiladora e, acima de tudo, se sentia profundamente sozinha e recorria ao Tumblr, ao Twitter, ao site myproana e até a chats como o Omegle ou o Kik. Se lessem: "Isto foi facílimo", estaria a mentir, porque constituiu uma das experiências mais aterradoras mas simultaneamente gratificantes da minha vida. Como se não fosse suficiente, não fazia ideia de como poderia manter a minha identidade oculta perante pessoas que queria ajudar por se encontrarem tão desesperadas e, o reverso da moeda: seria possível esconder-me, fingir que a Kaylee existia, quando conversava com curadores do jogo da Baleia Azul?
Até hoje, não recebi nenhuma mensagem assustadora ou tive algum pressentimento estranho, no entanto, quando determinadas pessoas leem a minha reportagem e me perguntam coisas como "Fizeste isto a partir do teu computador? És louca!" ou "E se estivessem a localizar-te através do teu IP?", não lhes consigo dar nenhuma resposta mais complexa que: "Tenho e tive medo, mas valeu a pena".
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| Em êxtase e com a revista P2 nas mãos, mostrando as primeiras páginas da minha reportagem. |
E, por falar em colocar-me na pele de... o que aconteceu durante a realização deste trabalho foi o seguinte: já ouviram dizer que, muitas das vezes, os atores e as atrizes estão tão ligados às personagens que representam que, em determinados domínios das suas vidas, não sabem se estão a agir consoante a pessoa ou a personagem? Aconteceu-me exatamente o mesmo, porque embora o objetivo da criação da Kaylee fosse a informação e não a ficção, não conseguia dissociar-me dela.
Contudo, seria injusto não falar de algo que me inspirou (e muito): a música Beauty From Pain da banda Superchick. Com uma letra deveras sincera, em que na primeira versão deste artigo referia a passagem After all this has passed, I still will remain, after I've cried my last, there'll be beauty from pain como lema da Kaylee, posso admitir que o título acabou por ser "Preciso de ajuda!" porque na maior parte das vezes, títulos noutras línguas não se justificam. Neste caso, creio que seria o oposto, mas como todos e todas os/as jovens que encontrei precisavam (e muito) de auxílio, sinto-me em paz com essa escolha.
"Durante uma semana, uma jovem portuguesa entrou no lado negro da Web..." - é este o início da entrada da minha reportagem e por mais irracional que isto possa parecer, sinto que entrei no lado negro da Web mas saí de lá muito mais esclarecida e com os pés bem assentes na Terra.

