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A entrevistar o Ruben Martins, no 4º Congresso dos Jornalistas Portugueses, em janeiro
Fotografia: Miguel Fernandes
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Nunca fui grande apreciadora da minha voz. Oiço comentadores desportivos com vozes fascinantes, pivots com timbres que provocam em mim uma inveja gigantesca, locutores que me fazem viajar até outros locais quando narram histórias... E eu, basicamente, passei dias a gravar a minha voz no telemóvel e no computador e cheguei a uma conclusão: falo de forma esquisita, por vezes demasiado rápida, chego a tropeçar nas palavras, o meu tom é desagradável e, podem-se rir, mas perguntei-me: "Por que raio vim para Jornalismo se não sei falar e pareço um tomate quando tenho de estar em frente a um microfone ou uma câmara!?"
Mas o segundo semestre começou em fevereiro e, com ele, vieram as aulas de Ateliê de Jornalismo Radiofónico e Ateliê de Jornalismo Televisivo, dois desafios elevados para alguém cuja zona de conforto é a escrita e, no máximo, as entrevistas. Quando o professor Paulo Sérgio, conhecido jornalista da RTP, nos pediu que construíssemos pivots, fui para casa e questionei-me se devia anular a cadeira e fazê-la por exame. Gozem comigo à vontade, mas só eu sei o pânico que sinto ao falar em público. Contudo, consciencializei-me de que estava na altura de enfrentar os meus medos e e entre falhas, exercícios que correram melhor e aprendizagem, confesso que esta cadeira tem sido uma das minhas preferidas.
Daí, passo para a minha experiência na rádio. O professor Francisco Sena Santos, cuja voz é reconhecível em qualquer canto do mundo, para além de ser uma pessoa incrível, encontra potencial em todos os seus alunos e é incapaz de os deitar abaixo, na verdadeira aceção da expressão. Digo isto porque já conheci profissionais da comunicação que o fazem, mas o professor Sena Santos não: se for preciso, senta-se em frente a nós na sala e conversa connosco ao microfone. Sobre o corte de eletricidade da faculdade, o acidente da marginal ou o nosso último 25 de abril. E a humildade com a qual nos brinda faz-nos chegar mais longe.
Em março, o pânico ainda me dominava, mas a Madalena Costa, editora da secção de Literatura da ESCS MAGAZINE e uma rapariga que me faz acreditar que a futura geração de jornalistas será fantástica, perguntou-me se queria declamar alguns poemas e gravá-los no estúdio de rádio. Aceitei mas avisei-a de que a minha voz é pior que... Que... Não me recordo do termo de comparação utilizado. Comigo, no estúdio (as minhas pernas tremiam que nem gelatina), tentou acalmar-me e o resultado final foi este:
Não me senti muito orgulhosa, mesmo assim, o simples facto de ter conseguido chegar até ao fim das gravações sem ter um ataque cardíaco constituiu uma conquista para mim e a Madalena disse: "Tens de ter calma. Antes de entrar para a ESCSFM, também morria de vergonha. É preciso esperar". Devo admitir que acenei com a cabeça algumas vezes, desejei-lhe um bom fim de semana, mas interiormente pensava: "Sim, claro, é fácil dizer isso quando se tem uma ótima voz. Já viste bem a porcaria que sou?" e fui para casa a sentir que tinha feito uma pior figura que a pessoa que canta os primeiros segundos da Lonely do Akon.
O mês de março passou, e abril chegou. Não houve águas mil, mas sim áudios mil. Com aulas práticas aqui, entrevistas ali, conversas acolá, fui-me sentindo mais à vontade, e mesmo que o meu coração acelerasse quando tinha de gravar um vivo de abertura e de fecho, por exemplo, já não caía para o lado. Antes da interrupção letiva da Páscoa, o professor Sena Santos colocou a Piano Man do Billy Joel a tocar e rematou: "Quando voltarmos, quero que me contem histórias baseadas nesta música". Naquela altura, não percebi o que ele queria dizer, mas quando iniciei um brainstorming com os meus queridos colegas e amigos André Medina e Margarida Alpuim, o objetivo final clarificou-se na minha mente e decidimos conjugar três vertentes da comunicação para contar a história do nosso homem do piano a três vozes: o entretenimento da Rádio Comercial, a reportagem e o comentário desportivo e a calma do Oceano Pacífico da RFM.
É verdade que não teria feito isto sem eles, porque têm um talento enorme e vozes incrivelmente peculiares. O André faz-me lembrar o Alexandre Afonso e, cada vez que o vejo, penso que um dia estará na rádio a relatar jogos ou, quiçá, a arrasar em flash interviews. A Margarida tem o dom de explicar todos os acontecimentos com tranquilidade. Com eles, aprendo e sinto-me melhor.
Alguns dias depois, em casa, recebi uma mensagem da Madalena Costa: "Maria, já sabes aquilo que farás este mês para Literatura?" e sabia, mas não tinha a certeza de que fosse sair exatamente como planeado. Gravei este áudio três vezes até estar assim e, mesmo que o "assim" esteja bem longe da perfeição, é o meu "assim" fofinho, que me faz ver que a minha voz já não é tão trémula como há um mês ou dois atrás. E ela gostou e eu fiquei toda contente!
Por isso, cheguei a uma conclusão: é necessário dar tempo à voz. Em qualquer vertente da comunicação, é um instrumento-chave do nosso trabalho. Mesmo que estejamos numa redação, teremos de telefonar a um entrevistado e de transmitir segurança ao fazer-lhe perguntas via telefone. Se trabalharmos num canal televisivo, teremos de possuir uma dicção incrível e de saber respirar e tudo o mais. Sei que não nasci com uma voz fantástica como algumas pessoas que admiro, como o Ruben Martins (de quem já falei por aqui) a Joana Vieira ou o Tiago Oliveira (meus colegas de curso), mas de uma coisa tenho a certeza: estou no caminho certo para dar passos em direção onde quero chegar e ir abandonando os meus medos, um a cada dia!
