Afonso Reis Cabral: quando o romance não cede ao sentimentalismo

By Maria Moreira Rato - abril 16, 2019


Afonso Reis Cabral / Fotografia de Maria Moreira Rato

Conte agora novidades / É casado? Tem saudades? / Já tem filhos? De que idades? A conversa não começou num tom informal ao jeito d’O Senhor Extraterrestre de Amália Rodrigues, mas a verdade é que a Rainha do Fado faleceu a 6 de outubro de 1999 e, pouco tempo depois, Afonso Reis Cabral escrevia os primeiros poemas. Aos 9 anos, sentia-se cativado pela possibilidade de uma gaivota lhe levar o céu de Lisboa, pela ideia de haver quem defenda e compre o chão sagrado do povo que lava no rio e intrigado pela presença das coisas que já lá vão mas deixam marca.
Durante seis anos, produziu perto de 200 poemas. No Ensino Secundário, após publicar a antologia Condensação, compreendeu que a prosa seria o novo caminho a percorrer. Já na capital, ingressou na licenciatura em Estudos Portugueses e Lusófonos na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova. Na mesma instituição, avançou para um mestrado na mesma vertente com uma dissertação onde interligou a teoria da literatura e os estudos da consciência.
Entre um part-time como adjunto de administração na Lisaltur, atividade de investigação no projeto Romano Torres: um arquivo histórico representativo da edição contemporânea e a escrita da dissertação, Afonso percebeu que no vento que lança areia nos vidros / na água que canta, no fogo mortiço / no calor do leito, nos bancos vazios, o amor à ficção estava sempre consigo. Terminou O Meu Irmão e candidatou-se ao Prémio LeYa. Em 2014, aos 24 anos, tornou-se o vencedor mais jovem de um dos mais valiosos prémios da literatura lusófona.
Entre 2014 e 2018, desenvolveu atividade enquanto editor e consultor editorial e uma extensa investigação que resultou na obra Pão de Açúcar. Estudou os últimos dias de vida da transexual Gisberta Salce Júnior e partiu para a construção de uma narrativa em que a conclusão já era conhecida, a introdução foi desvendada e o desenvolvimento ficcionado.

Maria Moreira Rato (MMR): Começaste a escrever aos 9 anos. O que é que te cativou no mundo da escrita?
Afonso Reis Cabral (ARC): Sobretudo, foi influência da Amália. Ela morreu em outubro de 1999 e gerou um boom mediático. Tinha ouvido falar dela, sabia mais ou menos que era uma cantora – apesar de não perceber bem que era fadista. Nunca tinha ouvido verdadeiramente os fados dela.
Depois da sua morte, fui quase forçado a ouvi-la e, para além da voz extraordinária, as letras fascinaram-me: as letras de poetas como Luís de Camões, David Mourão-Ferreira, Alexandre O’Neill, Pedro Homem de Melo e tantos outros que a Amália cantou.
Aos 9 anos, encarava isto como um mistério e uma aventura: em resposta a esse fascínio, comecei a escrever.

MMR: Aos 15 anos, publicaste o primeiro livro. O que é que o Condensação significa para ti enquanto escritor?
ARC: Achava, muito infantilmente, que já estava atrasado na minha ambição de escrita; que ter lançado um livro de poesia aos 15 anos já era tardio. Aliás, frequentava muito a Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Porto, e queria juntar uma lombada àquelas estantes. Não tinha propriamente a ideia de escrever um livro, mas sim de ver uma lombada minha ali, não sei bem porquê.
Quando, aos 15 anos, publiquei o livro achava que era tarde porque há muitos anos tentava ter material suficiente e de qualidade mas também encontrar uma editora. Portanto, na altura, foi um ritual de passagem mais do que outra coisa. E também uma espécie de cerimónia fúnebre: incluí no livro toda a poesia que achava que merecia ser publicada embora, hoje em dia, ache que não e, depois, deixei de escrever poesia. Dediquei-me exclusivamente à prosa.

MMR: Que caminho trilhaste até publicares o teu primeiro livro?
ARC: Escrevia muito e tinha – e ainda tenho – uma pasta no computador cujo nome é alter ego. Os meus pais brincavam comigo e diziam que,quando escrevia, tinha um alter ego porque como pessoa era feliz. Mas, quando escrevo, as coisas espelham o oposto disso.
A partir de um certo momento, senti que a escrita tinha de corresponder à publicação. Não queria escrever só para guardar na gaveta. A partir de determinado ponto, talvez aos 12 ou 13 anos, comecei a ter o intuito de publicar o primeiro livro. Intuito e sonho. Aos 12 anos, a ideia de ter um livro meu era muito apelativa. Era uma quimera: totalmente inatingível por só os grandes – no sentido de faixa etária – o faziam.
Queria publicar e o Condensação nasceu dessa vontade. 

MMR: No Ensino Secundário, à época, integraste a única turma de Línguas e Literaturas do Porto. Que impacto tiveram estes três anos na tua ambição literária?
ARC: Foram três anos cruciais. Vinha de um colégio onde não havia nada parecido: mesmo o curso de Línguas e Humanidades não abria todos os anos.
Foi uma turma muito difícil de constituir porque se tratava de um curso científico-humanístico muito especializado e havia mais ou menos 30 pessoas, de todo o Porto, que decidiram ir para o mesmo. Fomos juntando, muito por iniciativa dos pais, os alunos dispersos.
Acontece que muitas escolas não nos quiseram receber porque era um esforço grande ter apenas uma turma de Línguas e Literaturas. Muitos dos meus colegas desistiram da ideia a priori mas conseguimos formar uma turma na Escola Secundária Rodrigues de Freitas.
Foi uma turma muito boa, de pessoas empenhadas e com muita vocação para a área. Em particular, tivemos a sorte de encontrar um grupo de professores incrível: foi a primeira vez na vida em que estava quase profissionalmente, digamos, dedicado àquilo de que gostava.
Estudava Literatura Portuguesa, Português, Latim, Grego… estava realmente em casa! Para além daquilo que aprendi, foram três anos muito importantes pela partilha que houve. Por exemplo, a professora Maria Helena Padrão, de Português, prefaciou o meu livro: um prefácio incrível, excessivo e generoso da parte dela. Acolheu também o lançamento no Clube Literário do Porto – isso foi extremamente marcante. A professora Alexandra Azevedo acompanhou-me muito nas disciplinas de Latim e de Grego.
A passagem pelo Ensino Secundário foi extremamente enriquecedora.

MMR: Em 2008, ficaste em oitavo lugar na 7th European Student Competition in Ancient Greek Language and Literature. Como foi obter esse reconhecimento?
ARC: Tendo em conta que só tive um ano de Grego, estava em condições muito desfavoráveis em relação a muitos outros candidatos. Eles têm Latim e Grego desde o 7º ou 8º ano. Ou seja, foi completamente inesperado.
25 países e mais de 3500 concorrentes: primeiro, houve uma tiragem por país, a seleção dos representantes e fui o único português a participar.
Ir à Grécia depois de ter estudado a língua, a cultura e a História do país foi muito curioso.

Afonso Reis Cabral / Fotografia de Maria Moreira Rato
MMR: Quando te candidataste ao Ensino Superior, escolheste vir para Lisboa. O que te levou a prosseguir estudos na FCSH?
ARC: Em primeiro lugar, queria conhecer novos sítios, novas pessoas e ter novos desafios. Em segundo lugar, achei que o plano de estudos era melhor e os professores tinham mais publicações - seguia-os mais atentamente, eram pessoas mais destacadas e percebi que seria o caminho certo.
É evidente, e ainda hoje em dia, que Lisboa agrega tudo: na área da Literatura, está quase tudo concentrado na capital.
Não tenho memórias muito entusiasmantes dos anos de faculdade: adorei a licenciatura, adorei o ambiente mas nunca participei muito na vida académica. Foram anos de estudo, de alguns novos amigos e de descobertas. Mas, do ponto de vista do élan da academia, não posso dizer que o tenha sentido.

MMR: Como é que decidiste abordar a conexão existente entre os estudos da consciência e a teoria da literatura na tua dissertação de mestrado?
ARC: Tinha acabado de ler há pouco tempo dois livros que me interessaram muito: A Consciência e o Romance do David Lodge e A Mecânica da Ficção do James Wood. Estas duas obras apontavam já para uma possível ligação entre a literatura e os estudos de consciência do ponto de vista científico. E, em particular, o António Damásio aponta sempre para esta ligação: a literatura como exemplo máximo da consciência humana que está radicada no cérebro e se pode até estudar cientificamente.
Portanto, havia algumas luzes e julguei que era algo de tal maneira novo e cativante que queria estudá-lo e dar o meu contributo. Mas isto já foi há uns anos e, exatamente pela complexidade, é uma área que precisa de estudo constante. Hoje em dia, já não sou capaz de trabalhar o assunto com a profundidade de antes.
Não sei se a minha abordagem foi bem conseguida, mas foi um desafio muito interessante: no ano da elaboração da dissertação, estava simultaneamente a acabar de redigir O Meu Irmão, tinha uma bolsa de investigação para a qual ia de manhã e um part-time num escritório de turismo à tarde.

MMR: Tinhas concorrido a algum concurso literário antes do Prémio LeYa?
ARC: Sim. Da primeira vez, tinha 11 ou 12 anos e vi não sei bem onde – acho que no jornal Poetas & Trovadores – um anúncio a um prémio de poesia. Candidatei-me e tinha de enviar, num envelope, um poema de minha autoria e uma nota de 10 euros. Como é evidente, ficaram com a nota. Portanto, fui aldrabado – eu e suponho que mais pessoas, já foi uma burla simpática!
No meu colégio, havia também um concurso literário todos os anos letivos.

MMR: Em 2014, foste vencedor do Prémio LeYa com a obra O Meu Irmão. Em várias entrevistas, admitiste que este livro acabaria por ser inevitável devido ao facto do teu irmão ter trissomia 21. Para ti, não é mais difícil escrever sobre uma realidade que te é tão próxima?
ARC: Em muitos momentos, é mais difícil. No entanto (e isso eu percebi com o Pão de Açúcar), no momento da escrita trabalha-se a realidade, a história de forma íntima – quer seja mais pessoal, quer seja mais estrangeira.
A escrita é um ato transformador e possessivo: tudo aquilo que se trabalha, passa a ser nosso de certa maneira. Nesse sentido, tive tanta dificuldade a escrever o primeiro livro como o segundo.
Por outro lado, O Meu Irmão é particular porque escrevi-o durante três anos: houve momentos mais mortos, outros mais intensos e circunstâncias várias. Assim, a escrita de O Meu Irmão foi muito irregular mas houve momentos muito complicados, tal como no Pão de Açúcar.

O Meu Irmão / Leya Online
MMR: Em O Meu Irmão, o protagonista fica com a custódia do irmão, Miguel, após a morte dos pais. Têm quatro irmãs, mas o professor universitário assume a responsabilidade. É este o cenário que tens em mente quando imaginas o vosso futuro, teu e do teu irmão?
ARC: O cenário base d’O Meu Irmão é o cenário típico de todas as famílias que têm alguém com síndrome de Down ou outra deficiência à guarda. Porque, inevitavelmente, os pais morrem e são eles os guardiães dos filhos e, em particular, de alguém com síndrome de Down. Tendo eu um irmão com síndrome de Down, é óbvio que esse cenário pode estar no meu futuro: felizmente, não como no livro.

MMR: Na página 98 d’O Meu Irmão, o protagonista assume que o texto é “uma confissão em forma de livro”. É a confissão do irmão do Miguel, a tua ou de ambos?
ARC: O cenário é literário e puramente uma transformação de uma realidade que conheço, que consigo trabalhar de tal maneira que deixa de ser  minha. Separo muito bem as águas: aliás, não quero, de maneira nenhuma, cruzar as coisas. Não há nada que se cruze. De facto, a literatura é transformadora e nada que está no livro é particularmente meu. Nunca confundo cenários do livro com os da minha vida.

MMR: Durante o ano de 2015, escreveste várias crónicas para o Observador. Essa colaboração serviu de treino enquanto estavas à “procura de um novo livro”, como mencionaste?
ARC: Sim, de certa forma. Não gosto de ter a obrigação de escrever de x em x tempo. Mas acaba por ser uma obrigação importante porque a escrita, para além de muitas outras coisas, consiste em trabalho e rotina. Treinar a mão é importante. Nesse sentido, serviu de treino enquanto aguardava uma ideia para outro romance. Mas ter um momento de crónicas, apesar de não estar muito satisfeito com algumas, foi significativo.

MMR: Para a escrita do teu segundo livro, desenvolveste muito trabalho de campo: foste a diversos locais, conheceste muitas pessoas, entrevistaste-as e consultaste uma variedade de documentos. Sentiste, em algum momento, que te estavas a aproximar do jornalismo?
ARC: Não, nunca. Não sou jornalista: estou inserido num contexto completamente diferente nem estou constrangido pelo código deontológico típico do jornalismo. Os escritores só se obrigam à literatura. Ponto.
No caso particular do Pão de Açúcar, era preciso conhecer aquela realidade: não só da Gisberta, mas também do contexto social dos rapazes e entender o enquadramento citadino. Não conhecia, especialmente, nada.
A investigação que fiz surge dessa necessidade: não propriamente para fazer jornalismo ou escrever um relato que se aproxime do jornalismo, mas sim para conhecer, interiorizar de tal maneira a realidade que depois pude usá-la para a literatura.
É evidente que a investigação pode suscitar algum interesse e, aliás, no livro dou alguns lamirés sobre isso mas não pretendo, em nenhum ponto, seguir o exemplo do Truman Capote e criar um romance de não-ficção. Para mim, de facto, é puramente ficção: quer aquele pormenor A, B ou C venha da realidade ou não. Tal como n’O Meu Irmão, a partir do momento em que interiorizei certa realidade, passei a transformá-la.

Pão de Açúcar / Leya Online
MMR: Como é que funcionou o processo de imersão no mundo da Gisberta e dos seus agressores? Em algum momento sentiste que não serias capaz de suportar tamanha violência?
ARC: Houve vários momentos de grande confronto mas a realidade é dura per si: temos de a enfrentar e estar ao nível dela. Nesse sentido, aquilo que sentia ou o meu estado de espírito em relação à história eram pouco relevantes.
Estar mais ou menos impressionado ou sentir-me mais ou menos assoberbado não importava.
Aquilo que senti várias vezes é que não estava à altura da história por o assunto ser demasiado complexo para o tratar. Isso, sim, até muito tarde no livro. Até estar quase a terminá-lo.

MMR: O Rafael, o Samuel e o Nélson mantinham uma relação próxima com a Gisberta, ao contrário dos outros rapazes. Sentes que são mais culpados por terem traído uma amiga?
ARC: Tenho de fazer uma ressalva: estamos a falar de personagens. Eles não existem: são produtos literários, são ficção. Embora o livro se baseie num caso real, tudo é literatura. Não faço nem me interessa fazer uma análise moral das personagens.
Aquilo que me impressionou na história foi perceber que um grupo de rapazes encontrou a Gisberta e, durante algumas semanas, lhe deu de comer e conversou com ela – e isso está, de algum modo, transposto para esse trio.
Foi essa transição, entre a proximidade e a agressão, que me instigou a escrever. Foi isso que fez o livro. Se fosse simplesmente a agressão ou o estranhamento da Gisberta, não seria literatura.  

MMR: Tens preferência por algum dos teus livros?
ARC: Ultimamente, não tenho quase nenhuma empatia em relação ao O Meu Irmão. De certa maneira, a minha atenção canaliza-se toda para o Pão de Açúcar.
Não sei se depois do terceiro livro acontecerá este mesmo processo, uma vez que esta experiência é nova.
Quando me falam do primeiro livro, parece que foi escrito por outra pessoa. Por vezes, fico surpreendido quando as pessoas me recordam de certos detalhes. Tenho de parar e perceber que fui eu que o escrevi.

Afonso Reis Cabral / Fotografia de Maria Moreira Rato
MMR: Eras uma pessoa diferente, em termos psicológicos, quando o escreveste?
ARC: Não tem que ver com isso, mas sim com o facto de não podermos estar em permanente estado de empolgamento. Qualquer pessoa experimenta isso na vida: aqueles momentos que pareciam inatingíveis e, quando chegam, são extraordinários. Mas, depois, caem na rotina. E O Meu Irmão tornou-se na rotina porque, antes, achava impossível escrever e publicar um livro. Posteriormente, achei que seria impossível escrever um segundo livro e por aí fora. Temos de nos conformar.

MMR: A Estrada Nacional 2 liga Chaves a Faro. Depois da Páscoa, ligar-te-á ao teu próximo livro?
ARC: Já tinha a ideia da viagem há algum tempo. Há já algum tempo também que lia notícias sobre a Estrada Nacional 2, a maior estrada da Europa. Achava fascinante partir numa viagem a pé: pelos desafios físico e psicológico.
Nunca tinha tido oportunidade ou nunca tinha decidido realmente que faria isto. Entretanto, a revista Ler pediu-me uma reportagem de viagem e achei que era o ideal: juntar as duas coisas.
Vamos ver se consigo, pois há uma séria probabilidade de não conseguir. Mas, por outro lado, as pessoas também gostam de relatos de falhanços! Portanto, se falhar, e não conseguir, também haverá um lado apelativo!

MMR: Isso significa que o tema do teu próximo livro será outro?
ARC: Já o estou a escrever. Não estou ainda num ponto de dedicação total mas tenho uma ideia concreta daquilo que quero. Vamos ver como tudo corre…!

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