Rubrica: É hoje que conheço melhor... Gustavo Vidal

By Maria Moreira Rato - outubro 21, 2018

"Um refugiado é alguém que deixou o seu país de origem por medo de ser perseguido devido à raça, religião, associação a determinado grupo social ou opinião política". Para Gustavo Vidal, um jovem médico português de 30 anos, este conceito tornou-se comum há um ano, quando se dedicou totalmente a uma causa: integrar a equipa dos Médicos Sem Fronteiras. Comum, mas não  insignificante.


“Entre dois, entre três, entre muitos médicos bons, escolherei sempre aquele que tiver mais coração” – acredita que esta citação do célebre neurologista italiano Paolo Mantegazza se adequa à Medicina, isto é, a sabedoria deve ser aliada à sensibilidade para que um médico concretize corretamente o seu trabalho?
GV (Gustavo Vidal): Estou de acordo com a citação! A empatia é, a meu ver, essencial para um profissional de saúde que lide com pacientes. Muitas das vezes, mais do que máquinas de fazer diagnósticos, os doentes precisam de alguém que os ouça. A empatia é uma ferramenta essencial para estabelecer uma relação terapêutica.



Quando e como percebeu que abraçaria a Medicina como carreira? Constituiu uma decisão deliberada ou espontânea?
GV: Foi uma mistura de ambas. Já desde pequeno que queria ser médico porque o meu pai também o era e tinha o consultório dele em nossa casa, portanto desde cedo tive contacto com a Medicina. No entanto, pelo caminho surgiram dúvidas acerca se de facto era mesmo isto que queria fazer.


Com apenas 30 anos, é médico de clínica geral no Centro Hospitalar do Algarve e coordenou as atividades dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) durante oito meses em Atenas e em Lesbos. Que outras experiências o marcaram fortemente?
GV: É verdade que passei pelo Centro Hospitalar do Algarve, assim como pelo Hospital  Universitário de Coimbra e pelo Hospital Pedro Hispano no Porto, mas desde o último ano, estou dedicado a 100% a fazer missões com os Médicos Sem Fronteiras. Como médico, há sempre experiências que me marcam. Há doentes que me tocam, que nunca esquecerei.



De acordo com dados divulgados pela UNICEF em junho de 2018, existem 30 milhões de crianças deslocadas devido a conflitos / Fotografia gentilmente cedida pelo entrevistado


“Nunca tinha lidado com a questão das violações infantis. Foi o que mais me chocou” – referiu numa entrevista que concedeu ao Expresso, onde foi abordado o seu trabalho no campo de refugiados de Moria. “Quero falar com a Yasmin” é o código que as vítimas de violação usam para transmitir aos médicos aquilo que lhes acontece. Como é que aprendeu a lidar com este crime que se tornou comum em Lesbos?
GV: Na verdade acho que nunca se aprende. A experiência na Grécia foi de facto bastante intensa no que toca a este tipo de casos. Casos de vitimas de tortura e violações não são propriamente os clássicos de um médico em Portugal. Ouvir as histórias dos pacientes, é muitas das vezes, difícil. E na verdade nunca se torna mais fácil. Aquilo que me ajuda é lembrar-me do motivo pelo qual estou a ouvir a história - porque posso ajudar. Até por vezes, para o doente, o simples facto de contar a sua história a um profissional que está disposto a ouvir, sem o julgar, constitui uma grande ajuda.


No campo de Moria deviam viver (no máximo) 3100 pessoas e o mesmo acolhe, atualmente, 9000. Existe um duche para cada 200 pessoas ou uma sanita para cada 80, mas que outras condições desumanas presenciou enquanto tentou auxiliar os refugiados?
GV: O processo de asilo também é terrível. Os refugiados, por vezes, não têm informações sobre o funcionamento do mesmo - que é muito complexo - e sentem-se absolutamente perdidos. O facto de terem chegado à Grécia não significa que sejam aceites - há toda uma burocracia envolvida, que pode inclusive conduzir à deportação destas pessoas. E todo este processo pode levar mais de dois anos: dois anos, naquele campo, naquelas condições, sem respostas (positivas ou negativas) leva qualquer ser humano ao desespero.


Os refugiados que chegam a Moria são oriundos, sobretudo, da Síria, do Afeganistão e do Iraque. Com eles, trazem histórias de vida marcantes, mas, acima de tudo, pesadas. Que pessoas conheceu e nunca esquecerá?
GV: Creio que nunca esquecerei determinadas pessoas: desde uma mulher afegã, viúva, vítima de guerra e violência e com cancro da mama avançado que conseguiu trazer as duas filhas por uma travessia extremamente difícil até a Europa para que estas possam ter uma vida melhor, passando por uma paciente congolesa, um dos piores casos psiquiátricos que vi, com uma das piores histórias de vida, que me levou a lágrimas compulsivas em plena consulta.



As equipas dos Médicos Sem Fronteiras realizam as mais variadas atividades nos campos de refugiados, como: estruturam hospitais, vacinam crianças para prevenir epidemias e garantem o acesso à água potável / Fotografia gentilmente cedida pelo entrevistado


De acordo com dados da ONU, divulgados em agosto do ano corrente, 200 venezuelanos entram no Brasil todos os dias: entre janeiro e abril, 32 mil pediram asilo no país vizinho devido ao regime de Maduro. Boa Vista e Pacaraima, cidades do estado de Roraima, já acolheram 4000 refugiados. Em que consistirá a sua missão no estado conhecido pela Floresta Amazónica?
GV: A situação, com a migração venezuelana no Brasil, está de facto a agravar-se. Os números já são um bocadinho maiores que estes e é uma população que enfrenta muitas dificuldades. Neste momento, estamos ainda a realizar uma análise mais profunda das necessidades enquanto implementamos alguma atividades relativas à promoção da saúde e também da saúde mental.


Hoje em dia, o mundo vive em estado constante de crise humanitária. A guerra da Síria, o nível de fome incontrolável no Iémen ou a perseguição do povo rohingya na Birmânia são apenas exemplos dos flagelos vividos mundialmente. Qual é o papel que os médicos devem desempenhar em momentos de conflito e tensão como estes?
GV: De facto, no mundo têm surgido crises humanitárias, cada vez mais complexas, influenciadas também por políticas cada vez mais complexas. Pelo quinto ano consecutivo, atingiu-se o record no número de migrantes circulantes. Os médicos dedicam as suas vidas a servir aqueles que mais necessitam - sendo que estas populações, por motivos óbvios, são especialmente vulneráveis.


Para além da Medicina, quem é o Gustavo Vidal?
GV: O Gustavo Vidal, é bastante mais que um médico! Os ingleses têm uma citação com a qual me identifico bastante: “Jack of all trades, master of none”. De facto, tenho vários interesses que transcendem a Medicina, interesses que gosto de explorar nos meus tempos livres.


Na versão mais recente do célebre Juramento de Hipócrates, pode ler-se “Prometo solenemente consagrar a minha vida ao serviço da humanidade”. Pode dizer-se que acima de uma promessa é, também, o seu lema de vida?
GV: Pode dizer-se que sim, é um dos meus lemas. Mesmo quando não estou a exercer a minha atividade profissional, tento sempre ter consciência das minhas ações e que estas tenham um impacto positivo no mundo que me rodeia.

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9 comentários

  1. Uma notável entrevista! Belíssimo trabalho, Mia!...
    E adorei conhecer o Gustavo... são pessoas assim, que ainda me vão devolvendo alguma fé de que neste mundo... algo ainda venha a mudar para melhor...
    Migrações... um tema bem na ordem do dia... infelizmente pelos piores motivos... com tantos dramas humanos, envolvidos!...
    Beijinho! Tudo de bom!
    Ana

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  5. Passando para te deixar um beijinho, e desejar um Feliz Natal, na companhia dos teus, com saúde e paz, que é sempre o essencial!
    Tudo de bom!
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  7. Feliz 2019, para ti e os teus, Mia!
    Com muita saúde, esperança, muitos objectivos e realizações, afectos, e mil motivos, para sorrir!
    Tudo de bom! Beijinhos
    Ana

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