Isto não é uma despedida: da ESCS para o mundo

By Maria Moreira Rato - agosto 29, 2018

"Triste sina ver-me assim / Que sorte vil, degradante / Ai que saudade eu sinto em mim / Do meu viver de estudante"

Bênção das Fitas da Escola Superior de Comunicação Social - Ano Letivo 2017/2018 - 3 de junho de 2018
Fotografia de João Lambelho






Quando constatei que a última nota tinha sido publicada no portal e havia concluído o meu percurso na ESCS, uma panóplia de sentimentos confusa invadiu-me. Por um lado, quis saltar de alegria, ir à janela do meu quarto e gritar "Acabou! Apesar de todas as contrariedades, estou licenciada", mas a nostalgia consumiu-me com uma rapidez surpreendente...
Apercebi-me de que há coisas das quais me queixava há apenas algumas semanas mas que, agora, nunca mais farão parte do meu quotidiano e essa sensação amarga de ter perdido o meu pequeno mundo académico, a "bolha" onde podia estar sem pensar nos meus problemas é tudo menos agradável.
No fundo, estudar Jornalismo levou a que me focasse tanto nas histórias das outras pessoas e naquilo que acontecia no mundo que, enquanto me dedicava aos mesmos, tinha o privilégio de me abstrair daquilo que me magoava ou teimava em tornar a minha vida menos agradável.
Hoje, sentada à minha secretária e a reviver mentalmente a licenciatura que me moldou e fez crescer, quero correr para o comboio, saltar do mesmo em Algés e ir para o 750 com a sensação de que os pulmões me vão saltar pela boca. Quero chegar à Estação de Benfica, telefonar ao André e ouvi-lo dizer com aquele sotaque especial de Ponta Delgada "Estou só a beber um cafézinho da máquina, já vou para o -2". Quero abrir o Messenger a caminho de uma qualquer aula teórica só para ler as frases amorosas da Margarida. Quero ir para a "sala de trabalho" com o Luís falar da situação passada, atual e futura da nossa querida ESCS MAGAZINE, debater erros gramaticais do seu magnífico trabalho de Teorias do Jornalismo e ouvi-lo falar de cinema como se de um dos grandes mestres se tratasse (porque, no fundo, é). Quero sentar-me num dos bancos da entrada da escola a trocar umas palavras com a Teresa e perceber que essas são suficientes para nos rirmos a bandeiras despregadas. Quero passar pela Adriana no bar e dar-lhe um abraço apertado, conversar com a Ana Rita até altas horas da madrugada sobre os meus artigos que devem ser melhorados aqui e acolá e beber um pouco mais do humor sarcástico do Pedro que, apesar de me irritar, ensinou-me muito. Por favor, deixem-me regressar até um dos laboratórios para discutir cada detalhe da minha reportagem de TV com a Inês e entender que a dela está bem melhor. Seria maravilhoso regressar às tardes primaveris de conversa com a Carolina nas escadas do infinito. Deixem-me ir ao passado, falar com o Marcos sobre tudo e nada e sermos olhados com desconfiança por quem nos considera loucos.


"De capa ao ar cabeça ao léu / Só para amar vivia eu / Sem me ralar e tudo mais eram cantigas"


Eu e a minha avó na Bênção das Fitas da Escola Superior de Comunicação Social - Ano Letivo 2017/2018 - 3 de junho de 2018
Fotografia de João Lambelho
O célebre Fado do Estudante descreve com exatidão a maioria das emoções que tenho em mim e dos momentos que vivi, excetuando alguns versos, como aqueles que serviram de intertítulo para esta parte específica do post. Pode parecer estranho que os tenha escolhido se não ilustram as minhas vivências, mas por isso mesmo são tão relevantes!
Antes de ingressar no Ensino Superior, imaginava que os meus anos de academia seriam os melhores e mais mágicos. Que andaria sempre em festas e arraiais, que o traje seria (quase) a minha única indumentária, que conseguiria conjugar de forma perfeita as vertentes social, familiar, pessoal e escolar da minha vida, que entraria numa tuna - esse grande sonho que sempre tive - e tocaria um qualquer instrumento (que nem teria de ser necessariamente a minha adorada guitarra). Bom, e sendo sincera, almejava criar toda uma faceta descontraída de Vasco Santana n'A Canção de Lisboa, pensando que o lazer venceria a vontade de chegar mais longe academicamente por vezes...!
Mas a vida trocou-me as voltas, a bem dizer, e nada disto aconteceu. Em quase três anos, não estive presente numa única "atividade de integração", não trajei, não tive padrinhos nem madrinhas (estou a mentir, o talentoso Ruben será sempre o meu pseudo-padrinho) nem transmiti o meu testemunho aos estudantes mais jovens, não fui a nenhuma edição do Arraial Escsito, continuei quase tão preocupada com as notas obtidas como no Ensino Secundário e percebi que o equilíbrio só poderia ser algo ilusório para alguém que teve de realizar uma licenciatura enquanto cuidava e se preocupava muito com a avó. E porquê? Porque o diagnóstico e evolução da doença de alzheimer da minha avó coincidiram com a minha entrada, estada e saída da licenciatura em Jornalismo. E, há poucos meses, acreditava que só a terminaria daqui a um ano.


"Recordo agora com saudade / Os calhamaços que eu lia / Os professores da faculdade"


Pormenor da minha capa de finalista
3 de junho de 2018
Fotografia de João Lambelho
Por mais que tenha trocado impressões como "Não sei se já pensaram nisto, mas nunca mais teremos de ir a aulas de Estatística às oito da manhã", "Vou esquecer totalmente a enunciação, a referência e todos esses pequenos grandes detalhes complicados de Comunicação e Linguagem" ou "Adeus, sebentas pesadíssimas" com os meus colegas, a verdade é que sinto um nó na garganta quando acordo e não tenho de tomar duche em cinco minutos porque o André e a Margarida estão à minha espera no refeitório para avançarmos no trabalho de Cultura e Media. Esse nó agrava-se quando me apercebo de que por pior líder que tenha sido da ESCS MAGAZINE, nunca mais publicarei artigos, pedirei credenciais nem serei reconhecida por variadas pessoas nos corredores da escola que sabem quem eu sou por dirigir a grande revista da ESCS. E, claro, é melhor não abordar os episódios caricatos que me fazem cantar interiormente "Oh tempo, volta p'ra trás!", como o dia em que eu e a Maria Beatriz ficámos no terraço do piso 3 a gravar para Ateliê de Captação e Edição Audiovisual até à meia noite - isso somente aconteceu porque um dos seguranças foi suficientemente compreensivo ao ponto de não ordenar que as únicas alunas que se encontravam na escola numa noite fria de dezembro se fossem embora. A dor torna-se estúpida ao ponto de nutrir saudades das filas intermináveis do armazém (o famoso Centro de Equipamento Audiovisual) e de ouvir o Sr. João pedir-me que enrole os cabos "à cowboy", dos e-mails que enviava ao fantástico Sr. Rui, pedindo-lhe que me imprimisse trabalhos gigantescos em poucas horas (não sei como é que tem tamanha paciência) e até das horas infindáveis que passei a atualizar as redes sociais do IV Congresso dos Jornalistas com a doce Maria ou dos almoços em que me sentia absolutamente ignorante ao ouvir o amável Samuel a difundir os seus vastos conhecimentos.
Escusado será dizer que certos professores me cativaram muito, enquanto outros não o fizeram. Contudo, prefiro não mencionar nomes por uma razão: quem acordava todos os dias para nos transmitir o seu conhecimento merece ser respeitado independentemente daquilo que sintamos ao nível pessoal. Mas a quem me marcou de forma especial, deixo esta citação de Augusto Cury, “Professores brilhantes ensinam para uma profissão, professores fascinantes ensinam para a vida”.


"Evoco em mim recordações / que não têm fim dessas lições"

Finalistas de Jornalismo na Bênção das Fitas da Escola Superior de Comunicação Social - Ano Letivo 2017/2018 - 3 de junho de 2018
Fotografia de João Lambelho

No fim deste post, é imperativo agradecer a quem esteve do meu lado durante três longos anos. Quer tivéssemos sido unha com carne, dialogássemos devido a aulas e trabalhos ou fôssemos quase desconhecidos, não sou capaz de ignorar o rasto que deixaram na minha vida. Por isso, termino esta reflexão com um texto que escrevi a poucos dias da bênção.

Aqui estamos, no dia em que tudo termina. No entanto, quando tudo começou, disseram-nos que a ESCS seria apenas mais uma escola se fosse uma escola a mais. Três anos depois, não poderíamos estar mais de acordo com esse lema. Uns escolheram Jornalismo por sempre terem tido a necessidade visceral de expressar as suas ideias. Outros, nunca abandonaram o sonho de mudar o mundo e dar voz a quem não a tem. Talvez haja quem tenha ingressado nesta licenciatura com determinadas expetativas e, após seis semestres, saiba que estava totalmente enganado. Mas uma coisa é certa: se hoje erguemos as nossas capas com orgulho e associamos a cor amarela ao jornalismo, significa que ser operário da palavra e lutar pela verdade foram os elementos-chave que nos uniram.
Lembram-se de quando tremíamos ao redigir um lead? Recordam-se da ansiedade que percorria o nosso corpo antes de proferirmos umas simples palavras perante um microfone? E de quando nos debatíamos com a montagem de um tripé? E os nossos primeiros falsos diretos? Foram tudo menos brilhantes. Precisamos de aperfeiçoar estas e outras competências, mas a prática leva à perfeição.
Perfeição. Eis uma palavra que não consta no dicionário do jornalismo e que conduziu a momentos de frustração vividos por todos. Culpámo-nos por não conhecer as regências de todos os verbos, por desconhecer a melhor forma de conduzir uma reportagem, por captar um plano pormenor quando este não fazia sentido, por ter somente umas luzes da Legislação da Comunicação Social e até por não utilizar devidamente o Excel. Mas contornámos as adversidades e mesmo quando a conclusão da licenciatura assemelhava-se a uma miragem, não demos o braço a torcer.
Até porque houve quem tivesse torcido por nós independentemente daquilo que acontecia. Das ilhas a Lisboa, passando pelo Norte do país e rumando ao sul, viemos de todos os pontos do país e reunimo-nos na colina mais alta de Benfica, sem nunca termos esquecido as nossas raízes. Quando um exame corria mal, precisávamos de ir a recurso, estávamos descontentes com a atitude de alguém, não suportávamos a saudade, questionávamos a nossa vocação ou simplesmente precisávamos de carinho, tínhamos a sorte de ouvir vozes aconchegantes – vozes essas que ecoavam na nossa mente nos dias em que a vontade de desistir teimava em falar mais alto.
Felizmente, nem só a família nos apoiou: criámos laços fortes nítidos em emissões radiofónicas, em artigos publicados sob pressão, em trabalhos de grupo que possuíam todos os ingredientes para falhar, em olheiras disfarçadas nas mesas do -1, em aulas menos interessantes, em fotografias que encheram e preencheram as nossas redes sociais e, acima de tudo, em abraços calorosos e sorrisos de orelha a orelha.
Demos os primeiros passos no mundo do jornalismo e um leque variado de janelas de oportunidades se abrirá para nós, mas não nos podemos esquecer de que na televisão, na rádio ou na imprensa, o nosso dever primordial é encarar o jornalismo como locomotiva do progresso! Parabéns, turma de Jornalismo de 2018!

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2 comentários

  1. Muitos parabéns, Mia! Por teres concluído o teu curso, em que tanto te empenhaste... para mais, nas circunstâncias problemáticas que mencionas...
    É claro que esta "despedida" do mundo académico... é apenas, a tua porta de entrada para o mundo... e depois... as boas amizades, as verdadeiras mesmo... ficam para toda uma vida!...
    As maiores felicidades, para a tua vida pessoal e profissional, Mia!... E adorei ver a tua avó, que desejo se encontre tão bem quanto possível, dado o seu problema de saúde...
    Tudo de bom!... E quando puderes ou quiseres... vai dando notícias!...
    Beijinhos
    Ana

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