Rubrica: É hoje que conheço melhor... Miguel Saraiva

By Maria Moreira Rato - junho 17, 2018

Média de 17.521 valores. É este o feito pelo qual um jovem de 24 anos tem estado sob os holofotes da imprensa nacional. Entre as duas faculdades de Medicina do Porto e a Escola de Medicina da Universidade do Minho, concluiu o curso com a nota mais elevada. Mas, quem será o futuro médico para lá dos números? Hoje é dia de conhecer melhor o Miguel Saraiva. 

Miguel Saraiva / Foto de Maria Moreira Rato
Segundo um comunicado da Secção Regional do Norte da Ordem dos Médicos, escolheste Medicina pela “forte apetência para a área das ciências e pelo gosto em comunicar diretamente com pessoas”. Houve outro motivo que te tenha feito entender que ser médico é a tua vocação?

Miguel Saraiva (MS): Quando terminei o 9º ano, tive de escolher uma área de estudos para o Ensino Secundário e, no meu caso, sabia que queria seguir um curso científico-humanístico. Contudo, estava muito indeciso entre Ciências e Tecnologias e Línguas e Humanidades. Optei por Ciências não só por ter apetência mas também por acreditar que teria uma maior taxa de empregabilidade - dispenso os falsos moralismos e admito que pensei no meu futuro. Por isso, já ponderando a hipótese de estudar Medicina, falei com uma amiga da minha mãe que é médica e pedi-lhe para passar um dia com ela no hospital, para conhecer a rotina, as funções... e quer na vertente de internamento, quer na de laboratório, até mesmo nas consultas e nas urgências, senti que gostaria de ser médico.



Mas, numa tenra idade, tiveste a noção de que seria essa a profissão que devias abraçar?

MS: Vou admitir, sempre houve pressão social, porque estudar Medicina pressupõe uma média muito alta e um certo estatuto. A verdade é que acima de tudo, ser médico sempre me fez sentido, nessa altura, depois e agora. O Ensino Secundário correu bem e, com o avançar da idade, apercebi-me de que ser médico significa exercer uma profissão extremamente completa - um bom médico é um amigo, um ouvinte, um confidente - mas também muito enriquecedora, porque lidar com pessoas direta e diariamente é um privilégio. 



És natural de Viseu e mudaste-te para o Porto para estudares no ICBAS. Essa instituição foi a tua primeira opção? Como correu a tua adaptação a uma cidade nova?

MS: Quando decidi que me candidataria ao Mestrado Integrado em Medicina, refleti acerca das instituições mais próximas da minha cidade, ou seja, Coimbra e Porto. O meu objetivo era estudar mas também viver, conhecer pessoas novas, alargar o meu horizonte ao nível cultural. Nas férias de Carnaval do 12º ano, contactei um amigo meu que estudava Medicina no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) e pedi-lhe que me fizesse uma pequena visita guiada por lá. A verdade é que passei também pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) mas tive um feeling diferente no ICBAS: senti que era uma boa ideia estudar ali, até porque conhecia algumas pessoas e as instalações são mais próximas do centro da cidade que as da FMUP. Através desta exclusão de fatores, decidi realizar a minha formação superior no ICBAS e não estou nada arrependido.



Não te limitaste a explorar o lado puramente teórico do curso: fizeste parte do Departamento Científico Pedagógico da Comissão de Medicina, foste Vogal do Departamento de Medicina da Associação de Estudantes da tua faculdade e ainda realizaste dois intercâmbios (um no Japão e outro em Porto Alegre, no Brasil). Como foi conciliar o curso, estas atividades e a tua vida pessoal?

MS: É muito difícil responder a essa questão. Nos primeiros anos da faculdade, abdicava de algumas coisas porque não tinha a maturidade necessária para gerir as variadas vertentes da minha vida. No fim do terceiro ano, percebi que era possível articular tudo e que estava a organizar-me mal, porque comecei por integrar demasiadas atividades e fiquei assustado com o estudo que o curso requeria. É uma questão de gestão de tempo, mas analisando o meu percurso em retrospetiva, não sei como conciliei tudo porque estava sempre ocupado! Dormia pouco, sendo honesto, no entanto, fazia coisas que me davam gosto e que não eram um sacrifício. Hoje, sei que as atividades extracurriculares e os intercâmbios valeram a pena!



Volvidos seis anos, viste-te a braços com o Concurso de Ingresso no Internato Médico, o "bicho-papão" dos aspirantes a médicos. Em que consiste esse concurso? 

MS: Normalmente, terminamos o curso em junho ou julho, quando apresentamos a nossa tese de mestrado. Aquilo que acontece quando pretendemos seguir uma carreira médica em Portugal é a realização da Prova Nacional de Seriação, conhecida por "exame Harrison". Fazemos esse exame em novembro, mas normalmente estudamos desde o início do 6º ano. Temos de responder a 100 perguntas e os candidatos com os resultados mais altos escolhem o hospital em que querem estagiar, por assim dizer, durante o seu ano comum. Aqueles que têm uma cotação mais baixa que os melhores escolhem a seguir e assim sucessivamente. Para ingressar no ano comum, a única coisa que conta é a nossa média de conclusão de curso. Enquanto passamos por várias especialidades, umas obrigatórias e outras facultativas, entendemos melhor como se processa a prática hospitalar, como se faz uma nota de entrada, uma nota de alta e um processo nas urgências, são lançadas as notas do exame Harrison - isto enquanto o número de vagas existente para cada especialidade também é divulgado. 
A especialidade é escolhida tendo em conta o hospital em que a vamos tirar e, por isso, este processo torna-se muito doloroso porque estamos a concorrer a x vagas ao mesmo tempo que pessoas do Norte, Sul, Centro e ilhas e aquilo que importa é o resultado de um teste. O Internato de Formação Específica (formação para a especialidade) inicia-se em janeiro do ano seguinte, após a conclusão do Internato do Ano Comum.
4, 5 ou 6 anos (depende da especialidade), somos médicos a 100%!



Já estás no sexto mês do teu Ano Comum. Como o descreverias até agora?

MS: Estou a gostar mesmo muito! Tive a oportunidade de entrar num hospital que já é conhecido por proporcionar um bom ano comum aos jovens médicos, que é o Amadora-Sintra. Estou a aprender bastante, a ter uma vida tranquila - a minha carga horária não é tão elevada quanto isso e posso aproveitar Lisboa -, o ambiente no hospital é excelente e tenho bons colegas e tutores. O estágio mais longo que tive foi o de Medicina Interna, onde privei e trabalhei com a mesma equipa durante três meses e nunca esquecerei a Dra. Liliana Fernandes nem o diretor de serviço, o Dr. João Machado. Marcaram-me imenso tanto ao nível pessoal como cientificamente, até porque tenho a certeza de que futuramente, me questionarei: "Como é que a Dra. Liliana ou o Dr. João resolveriam x ou y situação?". 
Apreciei os outros ramos de diferenciação profissional, mas duraram apenas um mês e não criei tantos laços com as pessoas.
Sinto-me muito afortunado por ter passado por aquele serviço, por ter conhecido as pessoas que conheci e sei que devo muito a toda a gente que me auxiliou!



Estás ligado ao Hospital de Santo António (Porto) e, acima de tudo, à zona Norte.  O que te fez vir para Lisboa?

MS: Para dar uma resposta, tenho de apresentar várias justificações. Existiam coisas que gostaria de fazer depois do Harrison, mas nem tudo correu como tinha planeado. Para além disso, compreendi que precisava de ter um ano diferente; para mim, em que fizesse coisas que eu quero e em que conhecesse sítios e pessoas novos. Sempre namorei a ideia de viver e trabalhar em Lisboa, mas aí a ideia transformou-se numa opção. Informei-me sobre as condições dos hospitais da capital, acerca daquilo que ocorria durante o ano comum e percebi que um hospital central não seria a melhor escolha:  pela carga horária, pela qualidade de vida e pela possibilidade de me cruzar com colegas antigos. Assim, optei por ingressar no Amadora-Sintra. 
Queria começar do zero e consegui atingir esse objetivo!



Já assumiste que “a falta de vagas no acesso à formação específica” é algo que te preocupa. Em 2017, existiam 2633 inscritos na Prova Nacional de Seriação e somente 1700 vagas. O que justifica isto?

MS: Existe um numerus clausus (neste caso, trata-se do número fixo que determina a quantidade de pessoas que podem ser aceites no Internato da Especialidade) que é superior ao número de médicos que o país pode formar como médicos internos. Temos uma enchente de recém-licenciados em Medicina que pretendem ingressar no internato médico e não conseguem porque Portugal simplesmente não dá vazão a todos: não estamos a falar apenas de alunos formados cá mas também de portugueses que estudaram no estrangeiro e que estão no direito de vir trabalhar para o seu país de origem.
Este problema existe há mais ou menos três anos e acaba por nos amputar a formação. Estudamos e trabalhamos muito em seis anos, mas não estamos prontos a desenvolver uma vida hospitalar autónoma quando terminamos o curso: precisamos de nos especializar. Não é justo, nem para nós nem para o país, que nos seja vedada a formação específica. Isto compromete a qualidade dos cuidados de saúde prestados à população, até porque há cada vez mais médicos indiferenciados - médicos que não tiveram acesso a uma formação hospitalar completa. Isto origina uma desorganização hospitalar total mas também cuidados de saúde subótimos.



Como é que se pode contrariar esta tendência?

MS: À luz da minha inocência e da minha escassa experiência hospitalar, creio que o numerus clausus é um problema - não só pelos estudantes que ingressam pelo concurso normal, mas sim devido aos restantes contingentes - e devia ser repensado. Por exemplo, Medicina Geral e Familiar exige um internato de 4 anos e posso mudar de opinião brevemente, mas se fosse possível reduzir este período para 3 anos, restaria um ano de formação para imensas pessoas que hoje não têm acesso à especialidade. Posso estar enganado, mas hoje, estas soluções parecem-me plausíveis.



Entre 2001 e 2011 houve um aumento de 87,5% na percentagem de portugueses com um diploma universitário que saíram do país. O auge desta situação registou-se entre 2012 e 2014, em plena crise económica. Nesses dois anos, abandonaram o país 40 mil portugueses altamente qualificados. A fuga de cérebros regista-se também em Medicina?

MS: Cada vez mais. Aliás, tenho colegas que tiraram cursos de línguas durante os 6 anos de Medicina porque já pensavam em emigrar e trabalhar fora de Portugal. Principalmente, por temerem não obter nenhuma vaga para a especialidade que tinham em mente. Por isso, esta conjuntura é bem real.



O concurso para a escolha da especialidade está a decorrer. Já tens novidades?

MS: Sim! Fiquei com uma vaga em Endocrinologia, no Centro Hospitalar do Porto. Em 2019, infelizmente, sairei de Lisboa mas atendendo à formação que pretendo, tenho a consciência de que sou um sortudo por ter obtido esta vaga! Sendo sincero, não estou 100% seguro da decisão que tomei, mas pareceu-me a mais acertada e... Em princípio, serei endocrinologista quando for grande!



O que falta fazer na Medicina em Portugal?

MS: Só posso responder a esta questão através de uma quezília minha: a Medicina e os médicos, em Portugal, ainda se encontram num pedestal e isso tem de mudar. Ou seja, muitas das vezes os pacientes sentem que são inferiores aos médicos e que têm de se submeter àquilo que eles dizem. E esta desigualdade existe relativamente aos outros profissionais de saúde também.
Os médicos têm de entender qual é o seu papel e que poder de controlo têm sobre a saúde das pessoas - que são autónomas e têm de tomar decisões estando informadas. Ainda há um paternalismo associado à figura do médico e isso acaba por restringir a identidade e a originalidade dos médicos. Por exemplo, há hospitais que implementam medidas como "São proibidas tatuagens" ou "São proibidas saias". Qual é o objetivo? Transmitir a imagem de que os médicos são seres quase-perfeitos, que sabem quase tudo, que são semi-deuses?
O meu sonho era que todos os médicos pudessem exprimir a sua personalidade, porque o que importa aquilo que vestimos ou as alterações que fazemos ao nosso corpo se formos competentes e responsáveis?



Amanhã receberás o Prémio Daniel Serrão, cujo nome era Prémio da Ordem dos Médicos mas foi alterado em honra daquele que foi considerado uma das personalidades mais marcantes da anatomia patológica e da bioética. Para Daniel Serrão, “nenhuma dificuldade é superior à nossa determinação de a vencer”. Pode dizer-se que este lema se adequa à tua vida?

MS: Julgo que sim, não querendo parecer pretensioso. De facto, a nossa determinação e a nossa vontade de fazer mais e melhor e de querer chegar mais longe são fulcrais. Mas temos de ter os pés bem assentes na terra e perceber que nem toda a gente parte do mesmo ponto. Portanto, tive a sorte de ser apoiado pela minha família; os meus pais pagaram as minhas propinas, não tive de me esforçar para pagar o meu curso. Tenho a noção de que sou um privilegiado ao ter nascido numa família de classe média, pois nunca passei dificuldades e a determinação parte de nós mas não nos podemos esquecer de que só somos grandes porque estamos aos ombros de gigantes. 

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4 comentários

  1. Bela entrevista. É possível que venhamos a ouvir falar muitas vezes deste rapaz no futuro. Que assim seja!

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    1. Assim espero! Obrigada por continuares a acompanhar o meu trabalho :D

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