The Script: três anos depois, os filhos da liberdade regressaram a Lisboa

By Maria Moreira Rato - abril 02, 2018

  “The true-born sons of liberty are defined to meet under liberty” – esta é uma passagem de um impresso de 1765 emitido pela organização Sons Of Liberty, conhecida pela Boston Tea Party e pela defesa dos direitos dos colonos norte-americanos.
  Não vivemos no séc. XVIII nem estamos a poucos anos de assistir à conquista da independência dos EUA, mas uma coisa é certa: a expressão freedom child nunca se adaptou tão bem à música como na passada sexta-feira, quando uma Altice Arena eufórica recebeu de braços abertos o trio irlandês que começou a traçar o seu sucesso com o single We Cry, em 2007.
Foto gentilmente cedida por Catarina Craveiro
  “Liberdade é não teres vergonha de seres quem és, liberdade é dizeres aquilo que te passa pela cabeça e aquilo que sentes, liberdade é haver diversidade. Encontra o teu sonho e torna-o real” – foram estas as palavras que se ouviram enquanto as asas em azul néon, imagem de marca da Freedom Child Tour, iluminavam o palco e a direção das luzes dos holofotes ia-se alternando.
  A partir da quarta fila da plateia em pé, viam-se mãos no ar com telemóveis em riste e as apostas relativas à primeira música que seria tocada dividiam-se entre a Hall Of Fame (#3, 2012), a Superheroes (No Sound Without Silence, 2014) e a Rock The World (Freedom Child, 2017).Aqueles que pretendiam uma música motivacional para iniciar bem a noite ficaram satisfeitos, pois mal Danny O’Donoghue, vocalista da banda, irrompeu pelo palco com Mark Sheehan e gritou o típico “oh”, acompanhado pela bateria de Glen Power, percebeu-se que a primeira letra a ser cantada a plenos pulmões seria “every day, every hour, turn the pain into power”.

Danny O'Donoghue (foto gentilmente cedida por Cláudia Cerqueira) 
  
  Após uma ode àquelas que Danny, Glen e Mark acreditam que são as capacidades sobrehumanas que todos temos e que nos tornam super-heróis, seguiu-se Rock The World e era quase impossível ver alguém com os pés no chão. É razão para dizer que desde os dias da boyband MyTown, O’Donoghue e Sheehan chegaram muito longe e, para Power, que almejava uma carreira a solo, “working, living, fighting, feeling” com aqueles que hoje são os seus dois melhores amigos constituiu um passo decisivo para “abanar” o mundo da música.
  A audiência ainda estava abalada pela energia contagiante dos The Script quando um instrumental céltico familiar a muitos invadiu a arena, levando a que fosse difícil não pensar em Dublin, imaginar as saudades que os lads (forma carinhosa pela qual são tratados pelos fãs) sentem de casa e, acima de tudo, evitar transformar Lisboa num local suficientemente verde para os rapazes que tocaram Paint The Town Green com uma paixão avassaladora.
  “Qual será a próxima?” – era a pergunta realizada entre corações acelerados e expetativas elevadas. Danny sentou-se no palco e lançou o mote para a onda de emoção: “Going back to the corner, where I first saw you”. Em uníssono, os presentes cantaram “Gonna camp in my sleeping bag, I’m not gonna move” e The Man Who Can’t Be Moved foi conduzida por milhares de pessoas que mostraram saber de cor e salteado a letra do seu segundo single.
  Viajámos até Roma e às montanhas do Nepal, dançámos no Rio de Janeiro e nem a grande muralha da China foi esquecida em Wonders, onde os músicos apelam a que não deixemos de fazer aquilo que pretendemos somente porque “temos medo de correr riscos”.

Danny O'Donoghue (foto gentilmente cedida por Helena Cabral)

  “I can't unfeel your pain, I can't undo what's done, I can't send back the rain, But if I could I would… My love, my arms are open” – certamente havia quem não conhecesse a banda sonora de algumas das histórias dos jovens que já não se encontram em idade de estar no sistema de acolhimento norte-americano e, por isso, recorrem à organização californiana A Sense Of Home; contudo, é impossível ficar indiferente a este hino à compaixão.
  “Eu não sei se são como eu, mas quando fico bêbedo, telefono a quem não devo… Cantem comigo se souberem a letra!” – Danny podia não ter dito nada, pois assim que Glen, Mark e Ben Sargeant (baixista) inauguraram os primeiros acordes de Nothing, os guinchos denunciaram que o segundo álbum da banda, de 2010, está tudo menos apagado da memória dos portugueses.

Mark Sheehan (foto gentilmente cedida por Cláudia Cerqueira)
  No poema No Man Is An Island, o poeta inglês John Dunne escreveu: “No man is an island / Entire of itself / Every man is a piece of the continent / A part of the main”. Quatro séculos depois e com uma música homónima, Danny navegou pela plateia num barco insuflável para deleite dos fãs.
 “It was February 14 Valentine's Day, the roses came but they took you away, tattooed on my arm is a charm to disarm all the harm, gotta keep myself calm but the truth is you're gone” - os seguidores mais atentos do trio sabem que If You Could See Me Now é um tributo ao pai de Danny, Shay O’Donoghue, que faleceu a 14 de fevereiro de 2008, bem como aos pais de Mark. Quando Sheehan se benzeu, olhou para cima e O’Donoghue passou a mão pela tatuagem, foi quase inevitável sentir um arrepio.
  Porque estes irlandeses são peritos em escrever letras com as quais nos identificamos, a setlist tinha de incluir For The First Time, retrato musical da recessão existente na Irlanda através da emigração de um casal para Nova Iorque. Numa entrevista à estação de rádio australiana Nova 96.9, em 2010, Danny afirmou: “It's all about going back to basics, drinking cheap wine, eating your dinner off the floor. That's when you meet each other for the first time, when you have nothing." Para além de Portugal ser outro país que também foi afetado pela crise da Zona Euro, foi claro que para além da compreensão, os fãs tinham passado horas (alguns, anos) à espera de entoar afinadamente: “Ah these times are hard, yeah, they're making us crazy, don't give up on me baby”.

Foto gentilmente cedida por Cátia Costa
  Recriando a atmosfera intimista das suas primeiras atuações, a banda foi até um dos balcões da Altice Arena com duas guitarras acústicas, um teclado e um microfone, mobilizando centenas de pessoas no refrão de If You Ever Come Back - porque nem todos cantaram com um à vontade extremo “And I wish you could give me the cold shoulder, and I wish you could still give me a hard time”, no entanto, a necessidade de recuperar alguém que perdemos é transversal e viveram-se momentos inesquecíveis ao som do terceiro single de Science & Faith (2010).
  E eis que se abordou um amor para além da idade e das aparências numa versão sincera de Never Seen Anything Quite Like You dedicada a quem “tivesse levado um namorado, namorada ou alguém de quem gosta” ao concerto.
  De regresso ao palco, Mark, Glen, Ben e Luke Juby (a substituir Rodney Alejandro no teclado) acompanharam de modo perfeito Danny que caminhava entre as várias filas de um dos balcões, exemplificando que a sua energia nunca morre!
  Como se The Energy Never Dies não tivesse esgotado os resquícios de força existentes na The Script Family portuguesa, o trio decidiu que Rain, o single que inaugurou uma nova era na sonoridade da banda, corresponderia ao final oficial do concerto em território lusitano. “And it feels like oh-oh-oh-oh-oh-oh, ‘cause baby when you’re gone all it does is rain” – e o público dançou, não se deixando vencer pelo cansaço.

Danny O'Donoghue (foto gentilmente cedida por Isa Abrantes)
  O vocalista agradeceu a simpatia aos portugueses e abandonou o palco com os restantes membros da banda, abrindo espaço para minutos de interpretação do refrão de Rain. Da plateia em pé, passando pelos balcões, entendia-se que o encore era desejado e mais uma vez, os The Script não desiludiram. No Good In Goodbye é uma reflexão daquilo que fica quando uma relação termina: será apenas uma perda, vivemos uma tristeza temporária ou não podemos evitar a dor? A Altice Arena refletiu acerca de estas e outras questões de uma forma surpreendente, lançando os braços ao ar e proferindo cada palavra com sentimento.

Foto gentilmente cedida por Margarida Santos
  Seria impossível terminar a noite sem a canção cujo título é associado a um conceito económico: será que Breakeven significa um ponto de equilíbrio onde não existe prejuízo nem lucro? Para os fãs destes dubliners, encontra-se intrinsecamente conectado ao início da sua carreira e nunca deixará de ser o nome de uma das canções pelas quais os The Script são conhecidos.
  A audiência manteve-se firme e foi brindada com um fecho apoteótico: “Yeah, you can be the greatest, you can be the best, you can be the king kong banging on your chest”. O encorajamento é patente em toda a letra de Hall Of Fame e quem optou por passar um serão diferente ao som dos The Script não se arrependeu.
  De Dublin para o mundo, de um contrato discográfico recusado a milhões de álbuns vendidos, é razão para confirmar aquilo que o trio dizia há dez anos: “Os irlandeses têm alma”… e esperemos que regressem em breve a Portugal!

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