#opoderdanossavoz

By Maria Moreira Rato - fevereiro 01, 2018

  Quem é que não conhece a Lovely Pepa? E a Heaven Rose? Fazem parte da blogosfera, apenas em dois panoramas distintos: uma no espanhol e a outra no português, respetivamente. No entanto, ambas criaram o seu cantinho virtual com o mesmo objetivo: partilhar a paixão pela moda. E, infelizmente, sofreram na pele as consequências da exposição pública (e da estupidez alheia).
  Sigo a Alexandra Pereira, mas a Carolina Santiago é uma pessoa que, sem dúvida alguma, acompanho muito mais de perto, tanto ao nível pessoal como profissional. Descobri o blogue dela poucas semanas após a sua criação e, a partir daí, começámos a trocar comentários. Volvidos seis anos, frequentamos o 3º ano da licenciatura em Jornalismo e somos colegas de turma.
  Ora bem, quando li o último post da Carolina, intitulado #opoderdanossavoz, em que deu a conhecer as experiências de cyberbullying que viveu, não fiquei indiferente: não só porque a adoro e me senti revoltada por saber que já foi alvo de chacota, mas também porque vivi algo similar. 
  


 
cyber bullying, stop cyberbullying, and stephanie ovadia image

  Corria o ano de 2007 quando uma menina de 10 anos decidiu criar uma conta num site que acabara de conhecer, de seu nome Stardoll. Escolher os outfits mais adequados para a sua boneca, criar padrões para roupas e acessórios e até escrever sobre as peças que eram lançadas no Starplaza, centro comercial do site, não lhe preenchiam as medidas. Por isso, criou um blogue, onde partilhava os seus pensamentos acerca do mundo da moda sob o pseudónimo Mary.DKNY. Apaixonada pela coleção da DKNY apresentada na New York Fashion Week de 2007, comprava as réplicas de cada peça e criava oufits que partilhava naquele pequeno espaço onde sentia que se podia exprimir. Print screen, print screen, print screen... E lá mostrava ela os uma boneca com o cabelo encaracolado, uma maquilhagem simples e umas Balendra Booties.
  Inocentemente, a Maria colocava o link de cada post na sua "apresentação" do site e, por isso, recebia visitas no blogue e ficava contente. Até ao dia em que recebeu um comentário anónimo com o conteúdo seguinte (sim, estávamos em 2007 e a língua portuguesa era ainda mais desrespeitada que atualmente): "ex uma parolah! a DKNY jah extah forah de modah e devex xer uma gordah feiosah ke nem sabeh vextirxe". Sim, leram bem, até porque eu decorei cada palavra.

                                               
Era mais ou menos esta imagem que tinha ao entrar no Starplaza no inverno de 2007.

  A cada post, surgiam mais comentários. Se eu mostrava o sofá ou o quadro com um cão que tinha comprado para o quarto do primeiro andar da suite da minha boneca, a anónima x insinuava que eu era uma criança e que não devia estar no jogo. Se escrevia sobre uma nova loja que tinha sido inaugurada, não tinha conhecimento suficiente para expressar opiniões acerca do mundo da moda. Se pedia desculpa ao anónimo y ou à anónima b por ferir as suas suscetibilidades (à minha maneira pueril), chamavam-me estúpida e enviavam um "ahahahah" ridículo.
  Continuei no Stardoll, bem como a escrever no blogue. Para o mal dos anónimos e das anónimas, participei num concurso e fui nomeada starblogger, ou seja, colaboradora oficial do site, aos 12 anos. Tal como a Carolina, percebi que as visualizações do blogue aumentavam, mesmo em dias que não publicava nada. Não sabia verificar as fontes de tráfego, mas mesmo que soubesse, a solução foi fácil: comecei a receber avisos de supostas pessoas que seriam minhas "amigas verdadeiras" e que pretendiam avisar-me de que existia um blogue cujo título era "Anti Mary.DKNY".



  Como devem imaginar, ler coisas como "Não prestas para nada, elimina esta merda" ou "Deves achar que sabes escrever, lol, és uma treta" quando não temos idade nem construções mentais suficientes que nos permitam entender que a mensagem que nos transmitem pode não corresponder à realidade é... Difícil. Mesmo assim, não desisti. Alguns meses depois, apaguei o blogue e percebi que queria ir mais além; não que a Moda fosse um tema que merecesse menos atenção da minha parte, mas sim porque talvez eu não fosse a pessoa mais acertada para escrever acerca do mesmo.
  E foi aí que surgiu o Boulevard Of Broken Dreams, uma história em que trabalhei durante dois anos. Cada capítulo era minuciosamente arquitetado, as personagens podiam não ser perfeitas, contudo, dos 13 aos 15 anos, dei tudo aquilo que tinha (e não tinha) àquele projeto.
  Ganhei os meus primeiros leitores e as minhas primeiras leitoras, mas também seguidores que apesar de admitirem que não gostavam do meu trabalho, não desistiam de infernizar a minha vida.

  

    
  Os ataques intensificaram-se com a criação d'O Poder das Palavras, o blogue onde narrava a história de uma adolescente que sofria de anorexia, bulimia e binge eating e, acima de tudo, conseguia colocar em palavras muito daquilo que me aconteceu entre os 14 e os 16 anos. Chegava a receber 30 comentários por capítulo, algo que para uma writer wannabe como eu significava o mundo, porém a felicidade não foi duradoura, porque quem me criticava no Boulevard Of Broken Dreams, deixava autênticas pérolas como "És psicóloga, por acaso? É que se não és, não escrevas sobre assuntos que não te competem, estúpida", "Pois, deves ser uma traumatizada, para escreveres esta história de merda" ou "Por que raio aconselhas os teus leitores? Estas pessoas são ridículas como tu" na minha caixa de comentários.
  Uma vez, uma tal de "Conselheira dos Blogues" (hoje, consigo rir), escreveu um "testamento" onde explicava que devia organizar melhor o meu tempo para escrever mais frequentemente porque (e passo a citar) "os seus leitores deixarão de a acompanhar se não publicar pelo menos duas vezes por semana, percebe?". E acrescentava ainda: "Não sei que idade tem, mas veja lá se quer mesmo fazer da escrita o seu futuro, ok?".
  É impressionante como a liberdade de expressão leva a que determinadas pessoas pensem que podem "vomitar para dentro de uma caixa" ou, mais especificamente, para cima de um teclado, só porque não se encontram cara a cara com a vítima das suas ações. Ações oriundas de indivíduos tristes e vazios que, só por estarem atrás de um ecrã, julgam ser donos da verdade.

    

  De 2014 a 2016, a minha presença na blogosfera foi nula. Limitava-me a ler o trabalho dos outros e a ser como que um fantasma nestas andanças. Até que perto dos meus 19 anos, regressei em anónimo e tive mais sorte. Conheci pessoas espectaculares, como o Miguel do Pieces Of Me, um dos poucos a quem revelei a minha identidade.
  Porque depois de tudo isto, aprendi que basta escrevermos o nosso nome numa sidebar, demonstrarmos os nossos interesses ou criarmos uma página para questões que estamos condenados. E não temos de ser donos (necessariamente) de um blogue "famoso" ou constituirmos "personalidades influentes", porque o ódio chega a todo o lado.
  A inconsciência é um dos maiores males da nossa sociedade. É fácil escrever um link, entrar no respetivo site e ignorar o ser humano que se dedica afincadamente ao mesmo. Difícil é sentir aquilo que senti: ter duvidado até do meu ingresso em Jornalismo ou da minha escrita porque haters virtuais perderam cinco minutos a destruir toda uma vida.



  Tal como a Carolina, convido-vos a falarem, a não permitirem que a hostilidade chegue mais longe que o carinho! Quero ler os vossos posts!

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5 comentários

  1. Que essas más experiências sirvam para fortalecer todos os que, como tu, perseguem um sonho para o qual, ainda por cima, estão fortemente talhados!

    Continua o bom trabalho e acredita sempre em ti! Força!

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  2. Eu nunca fui vítima de nada semelhante e é um dos meus maiores medos, porque deve ser horrível... tenho acompanhado estas histórias e ficado chocada com quanta maldade existe por aí!

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  3. Adorei o post! Segui o teu blog, podes seguir o meu? :)

    www.aflormaria.blogspot.pt

    beijinhos

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  4. Post muito bonito. Nem consigo acreditar como as pessoas tiram tempo para espalhar ódio por aí. Cabe a nós, que escolhemos colocar-nos nessa posição frágil, lidar conscientemente com todo o tipo de feedback e ter a paciência de compreender que essas pessoas não têm em conta o crescimento de alguém, nem de si mesmos. É uma enorme pena.

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  5. Um tema interessante... até porque eu tenho dois photo bloggers que desvalorizam o meu blog continuamente... mas como até me deixam imensas visualizações diárias entre os dois... até já acho piada... à sua patética presença... pouco me importa já a sua opinião... até porque a qualidade do seu trabalho, tem vindo a atrofiar ao longo do tempo... de tanto olharem para mim... deixaram de cuidar convenientemente, dos seus próprios espaços, leitores e qualidade das suas postagens... pois praticamente as suas postagens, são uma parodia sobre tudo o que digo, ou mostro... entre ambos... respondendo um ao outro, em contínuo... de uma forma subtil...
    Sempre haverá gente assim... pequenina... mesquinha e invejosa... em qualquer lado... na net... ou fora dela... a questão é termos a consciência, se devemos ou não deixar, que gente assim, leve a melhor, ao dar-lhes a importância, que não merecem...
    Eu deixei de dar-lhes importância... bani-os do blog... e 3 anos depois... sei que me visitam religiosamente todos os dias... muitas vezes ao dia... e todos os dias continuam a ver o que faço... até os acho uns quiduxos... aumentando as visualizações do blog... sem que eu faça nada por eles...
    De vez em quando ainda os vou espreitando... confesso... mas sem me deixar afectar jamais, pelo que insinuam... como é o ditado?... Conserva os amigos por perto... e os inimigos mais perto ainda... :-)) Assim pelo menos, sabemos o que andam fazendo...
    Com a opinião dos outros... posso eu bem! Só o que eu penso de mim mesma, para mim, é que faz toda a diferença...
    E talvez seja por tudo isto, que as redes sociais, não me seduzem ainda... senão a exposição a situações destas, ainda seria maior... e felizmente... por enquanto, vou tendo mais o que fazer... e em que ocupar o meu tempo...
    Beijinho! Gostei imenso do post!
    Ana

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