Rubrica: É hoje que conheço melhor... Teresa Leite

By Maria Moreira Rato - agosto 08, 2017

  
Fotografia: Maria Moreira Rato
  

  Tal como vos expliquei no meu post anterior (e nem acredito que já o escrevi há mais de um mês! Peço desculpa pela minha ausência mas, como devem compreender, realizar três exames finais e fazer 20 anos ocupou uma parte significativa do meu tempo, ahah!) a musicoterapia tornou-se parte da minha vida quando tive a unidade curricular de Narrativas e Guião para Jornalismo. Na verdade, ao ter de contar uma história com "pés e cabeça", interessei-me pela vertente terapêutica da música e tentei entender a forma como a mesma pode ser utilizada para auxiliar o tratamento de variadas patologias. E foi aí que me cruzei com a Professora Doutora Teresa Leite, que se prontificou a ceder-me uma entrevista desde que lhe enviei o meu primeiro e-mail.
  Nos Estados Unidos, a musicoterapia é praticada há quase setenta anos, porque os médicos descobriram que os veteranos da guerra do Vietname conseguiam exorcizar os seus demónios, digamos assim, através da harmonia e das notas musicais. Já em Portugal, a música só se evidenciou enquanto ciência nos anos 70, quando foi criado um grupo de investigação do curso de Educação pela Arte, contudo, mais tarde, em 1989, a Divisão Regional de Educação Especial da Madeira efetuou no Funchal o primeiro curso de formação de musicoterapeutas.
  Posso dizer que a minha entrevistada possui o melhor destes dois mundos acima mencionados: tirou o mestrado em Musicoterapia na New York University e é doutorada em Psicologia Clínica pela Adelphi University. Para além do seu percurso académico notável, trabalhou ainda como psicóloga no centro médico de Nassau County e no Centro em Si e é coordenadora do único mestrado em musicoterapia existente em território português, o da Universidade Lusíada de Lisboa.




  O que é que a musicoterapia significa para si?

  Teresa Leite (TL): Há duas maneiras de a definir: é uma intervenção terapêutica, nasceu como tal, como uma forma de chegar a pessoas cujas patologias não respondiam muito bem aos métodos de tratamento convencionais; também já é uma disciplina, uma área de conhecimento - neste aspeto, dependendo dos países, há países em que a musicoterapia já é literalmente uma profissão, que as pessoas escolhem após a conclusão do Secundário, como nos EUA. 
  Noutros países, é exercida como uma especialização, mas de qualquer modo já existe investigação a ser realizada, um corpo teórico próprio, que foi buscar muitas coisas à Psicologia, à Medicina, à Música, à Musicologia. Como intervenção terapêutica, é muito virada para a vertente psicológica, sendo que o psicológico é inseparável do físico e aqui a música é gerida de forma a promover experiências que se foquem nos problemas do paciente e o objetivo é que o musicoterapeuta conheça a doença e consiga "mexer" na música de modo a ajustá-la à pessoa e melhorar o que não se encontra tão bem na sua vida.



  O que a fez escolher esta utilização tão nobre do poder da música como profissão?

  TL: Existiu um processo gradual, na medida em que eu fiz o Ensino Secundário a par com o Conservatório. Eu sempre gostei de música, escolhi ter aulas de instrumento, mas na altura não havia a quantidade de escolas como há hoje, era tudo mais separado entre bandas filarmónicas locais e conservatória, academia de amadores de música, etc. Portanto, eu fui por essa via, comecei a estudar formação musical, especialmente piano, no entanto, sempre soube que não pretendia ser pianista nem performer.
  Tinha uma curiosidade imensa pela vertente psicológica da música: o que é que se passa na cabeça das pessoas quando compõem, o que é que as canções provocam nas pessoas e quando ia a concertos, perguntava-me: "O que é que está a acontecer connosco?" e para mim, a música sempre fez sentido em grupo, porque é interativa.
  Comecei a ouvir falar da musicoterapia e a frequentar seminários de introdução e percebi que era a resposta para o meu dilema: porque eu queria conhecer a música e tocar e estava a formar-me como psicóloga e terapeuta e a palavra é ótima mas pode não chegar. E quando acabei a licenciatura, já estava a querer mais em termos de formação, então, concorri a uma bolsa e fiz o mestrado em musicoterapia nos EUA e fiquei lá a fazer o doutoramento já na área da Psicologia, mas sempre soube que aquela era a minha maneira de viver a música e de fazer terapia.



  Como encara o atual panorama da musicoterapia aos níveis nacional e internacional?

  TL: Bom, para quem estudou e exerceu a profissão nos EUA, é complicado não dizer que a diferença existente, por exemplo, entre esse país e Portugal é abismal. É como se estivéssemos noutro mundo, mas há pontos em comum: todos nós conhecemos profissões que são mal entendidas e que existem há muitos anos, porque ainda no outro dia uma pessoa perguntou-me a diferença entre um psiquiatra e um psicólogo.
  A questão é que estas ideias distorcidas são perigosas para os utentes, porque depois as pessoas fazem coisas de intuição, e isso não acontece só em território nacional. Há "profissionais" que não seguem os standards da prática da musicoterapia e só porque dão aulas de música ou sabem tocar um instrumento, acham que são musicoterapeutas: nunca estudaram patologia, pensam com cabeça de músico, são criativos e não planearam nada ao nível terapêutico, usam a música para fins artísticos, culturais ou pedagógicos. Eu estudei música e não posso dizer que sou professora de música. Estar em contacto com a música não me habilita a fazer musicoterapia nem a ensinar.
  Há dois grandes problemas: as pessoas sentem que absorvem tudo espontaneamente e no mundo das terapias alternativas milenares, como o yoga ou o tai chi, o som é utilizado e como quem as pratica sai de lá a sentir-se bem, os técnicos pegam nisso e pensam: "pronto, fizemos musicoterapia". 



  É a representante portuguesa na European Music Therapy Confederation. Que trabalho tem sido feito pela confederação em Portugal?

  TL: A confederação não exerce propriamente nenhuma atividade em Portugal, é um ponto de reunião e estandardização da musicoterapia. Reunimo-nos, participamos em decisões-diretrizes. A confederação europeia tenta colocar todos os musicoterapeutas da Europa em contacto e saber o que está a acontecer em cada país, criou o código deontológico que é traduzido em várias línguas, etc. Temos mais facilidade de acesso a informação relativa a congressos, seminários, formações e tudo o mais.
  A missão da confederação é reunir os profissionais da musicoterapia mas também chegar a um ponto onde na Europa toda, saibamos o que é um musicoterapeuta, mais ou menos que tipo de formação ele tem de ter... E vamos aprendendo com outros países, por exemplo, o Reino Unido já tem uma licença profissional de terapeuta de artes criativas, Israel uniu a dramaterapia, a dançaterapia, etc. à musicoterapia nessa licença. Nós estamos a tentar chegar à Assembleia da República com a nossa petição, há muito para andar, mas queremos que, pelo menos, a profissão seja reconhecida.



  Todos os pacientes são especiais e, as suas características e histórias, acabam por moldar a personalidade dos musicoterapeutas e alterar a perspetiva dos mesmos, no entanto, existe alguma pessoas que a tenha marcado de forma diferente?






  O que espera do futuro da musicoterapia?

  TL: Em Portugal, espero que ela venha a ser reconhecida como uma terapia complementar, como é a fisioterapia: quando digo complementar, quero dizer que raramente somos só nós a trabalhar com um paciente - trabalhamos em equipa e infelizmente há muitas pessoas que necessitam de vários serviços. Portanto, o musicoterapeuta une-se ao médico, ao psicólogo, por vezes ao professor de apoio ou ao terapeuta da fala, etc. Espero que a musicoterapia seja reconhecida como uma atividade profissional com requisitos específicos para o seu exercício - acima de tudo, quero que esta terapia cresça a ser bem executada por quem tem formação porque senão estaremos a dar mau nome à disciplina e que, por outro lado, sejamos reconhecidos pelos outros profissionais - que um bom neurologista, que um bom psiquiatra, nos dê o crédito que merecemos: que não haja competição, mas sim colaboração!
  Em termos internacionais, espero o mesmo mas que a comunidade se ligue, porque mesmo em países mais desenvolvidos, há pessoas que menosprezam o nosso trabalho, que ainda são muito céticas. Costumo falar com colegas minhas dos Estados Unidos que me dizem que os musicoterapeutas ainda não são reconhecidos devidamente porque há indivíduos que decidem "sou musicoterapeuta" só porque realizam atividades que envolvem música.
  Digo sempre aos meus alunos que existem maus e bons profissionais em todas as áreas e em todos os países e temos de separar o trigo do joio e não é por estarmos em Portugal, nos EUA ou na Alemanha que a musicoterapia é mais ou menos bem exercida!

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13 comentários

  1. Ohn <3 És uma linda, é o que é!

    O que me enche de orgulho é a forma como tens crescido enquanto Jornalista <3 Adoro cada entrevista!

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    InstagramFacebook Official PageMiguel Gouveia / Blog Pieces Of Me :D

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  2. Obrigada pelos comentários :P
    Gostei muito da entrevista :P

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  3. Adorei a entrevista. Não sei nada sobre musicoterapia mas fiquei muito curiosa, principalmente porque estudo música desde os 8 anos, mas como performer. Tenho que procurar seminários desta área para expandir os conhecimentos!

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  4. Uma área de enormes potencialidades... que ainda está muito sub aproveitada no nosso país... que o futuro, traga o devido reconhecimento, que merece!
    Adorei a entrevista, sobre este interessantíssimo tema!
    Um beijinho grande... e um bocadinho atrasados... aqui ficam os meus votos de muitos parabéns... pelo teu aniversário... e pelo teu empenho nesta belíssima carreira do jornalismo!
    Tudo de bom!
    Ana

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  5. Isto é muito interessante! Adorei a entrevista.

    r: Oh, que querida, muito obrigada *.*

    Combinado ahahah

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  6. Passando, para te deixar um beijinho, votos de uma excelente semana, e continuação de um excelente mês de Agosto!
    Tudo de bom!
    Ana

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  7. "há países em que a musicoterapia já é literalmente uma profissão" <3 <3 <3 tão bom!

    r: obrigadaaaaaa <3

    ps: mudei o link do blog. se quiseres continuar a seguir, deixa de me seguir e volta a seguir para receberes a notificação dos posts :)

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  8. Como é que eu nunca tinha ouvido falar da musicoterapia? Fiquei com imensa curiosidade de saber mais e gostei muito de ler a entrevista :)
    Kiss, Mariana Dezolt
    Messy Hair, Don’t Care

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  9. Great read, thanks for the review. Looks like a great product, thanks for the share!
    Scarlett

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  10. hi, ım a new follower on your blog from gfc ...
    I hope you will be back ...
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  11. Deixando um beijinho, e esperando que tudo esteja bem aí desse lado...
    Hoje deu-me saudades, deste teu cantinho...
    Ana

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  12. Ohn :') Mil e uma saudades tuas, meu bem <3

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