Uma lição: dar tempo à voz

By Maria Moreira Rato - abril 29, 2017

A entrevistar o Ruben Martins, no 4º Congresso dos Jornalistas Portugueses, em janeiro
Fotografia: Miguel Fernandes


  Nunca fui grande apreciadora da minha voz. Oiço comentadores desportivos com vozes fascinantes, pivots com timbres que provocam em mim uma inveja gigantesca, locutores que me fazem viajar até outros locais quando narram histórias... E eu, basicamente, passei dias a gravar a minha voz no telemóvel e no computador e cheguei a uma conclusão: falo de forma esquisita, por vezes demasiado rápida, chego a tropeçar nas palavras, o meu tom é desagradável e, podem-se rir, mas perguntei-me: "Por que raio vim para Jornalismo se não sei falar e pareço um tomate quando tenho de estar em frente a um microfone ou uma câmara!?"
  Mas o segundo semestre começou em fevereiro e, com ele, vieram as aulas de Ateliê de Jornalismo Radiofónico e Ateliê de Jornalismo Televisivo, dois desafios elevados para alguém cuja zona de conforto é a escrita e, no máximo, as entrevistas. Quando o professor Paulo Sérgio, conhecido jornalista da RTP, nos pediu que construíssemos pivots, fui para casa e questionei-me se devia anular a cadeira e fazê-la por exame. Gozem comigo à vontade, mas só eu sei o pânico que sinto ao falar em público. Contudo, consciencializei-me de que estava na altura de enfrentar os meus medos e e entre falhas, exercícios que correram melhor e aprendizagem, confesso que esta cadeira tem sido uma das minhas preferidas.
  Daí, passo para a minha experiência na rádio. O professor Francisco Sena Santos, cuja voz é reconhecível em qualquer canto do mundo, para além de ser uma pessoa incrível, encontra potencial em todos os seus alunos e é incapaz de os deitar abaixo, na verdadeira aceção da expressão. Digo isto porque já conheci profissionais da comunicação que o fazem, mas o professor Sena Santos não: se for preciso, senta-se em frente a nós na sala e conversa connosco ao microfone. Sobre o corte de eletricidade da faculdade, o acidente da marginal ou o nosso último 25 de abril. E a humildade com a qual nos brinda faz-nos chegar mais longe.
  Em março, o pânico ainda me dominava, mas a Madalena Costa, editora da secção de Literatura da ESCS MAGAZINE e uma rapariga que me faz acreditar que a futura geração de jornalistas será fantástica, perguntou-me se queria declamar alguns poemas e gravá-los no estúdio de rádio. Aceitei mas avisei-a de que a minha voz é pior que... Que... Não me recordo do termo de comparação utilizado. Comigo, no estúdio (as minhas pernas tremiam que nem gelatina), tentou acalmar-me e o resultado final foi este:


 

  Não me senti muito orgulhosa, mesmo assim, o simples facto de ter conseguido chegar até ao fim das gravações sem ter um ataque cardíaco constituiu uma conquista para mim e a Madalena disse: "Tens de ter calma. Antes de entrar para a ESCSFM, também morria de vergonha. É preciso esperar". Devo admitir que acenei com a cabeça algumas vezes, desejei-lhe um bom fim de semana, mas interiormente pensava: "Sim, claro, é fácil dizer isso quando se tem uma ótima voz. Já viste bem a porcaria que sou?" e fui para casa a sentir que tinha feito uma pior figura que a pessoa que canta os primeiros segundos da Lonely do Akon.
  O mês de março passou, e abril chegou. Não houve águas mil, mas sim áudios mil. Com aulas práticas aqui, entrevistas ali, conversas acolá, fui-me sentindo mais à vontade, e mesmo que o meu coração acelerasse quando tinha de gravar um vivo de abertura e de fecho, por exemplo, já não caía para o lado. Antes da interrupção letiva da Páscoa, o professor Sena Santos colocou a Piano Man do Billy Joel a tocar e rematou: "Quando voltarmos, quero que me contem histórias baseadas nesta música". Naquela altura, não percebi o que ele queria dizer, mas quando iniciei um brainstorming com os meus queridos colegas e amigos André Medina e Margarida Alpuim, o objetivo final clarificou-se na minha mente e decidimos conjugar três vertentes da comunicação para contar a história do nosso homem do piano a três vozes: o entretenimento da Rádio Comercial, a reportagem e o comentário desportivo e a calma do Oceano Pacífico da RFM.





  É verdade que não teria feito isto sem eles, porque têm um talento enorme e vozes incrivelmente peculiares. O André faz-me lembrar o Alexandre Afonso e, cada vez que o vejo, penso que um dia estará na rádio a relatar jogos ou, quiçá, a arrasar em flash interviews. A Margarida tem o dom de explicar todos os acontecimentos com tranquilidade. Com eles, aprendo e sinto-me melhor.
  Alguns dias depois, em casa, recebi uma mensagem da Madalena Costa: "Maria, já sabes aquilo que farás este mês para Literatura?" e sabia, mas não tinha a certeza de que fosse sair exatamente como planeado. Gravei este áudio três vezes até estar assim e, mesmo que o "assim" esteja bem longe da perfeição, é o meu "assim" fofinho, que me faz ver que a minha voz já não é tão trémula como há um mês ou dois atrás. E ela gostou e eu fiquei toda contente!





    Por isso, cheguei a uma conclusão: é necessário dar tempo à voz. Em qualquer vertente da comunicação, é um instrumento-chave do nosso trabalho. Mesmo que estejamos numa redação, teremos de telefonar a um entrevistado e de transmitir segurança ao fazer-lhe perguntas via telefone. Se trabalharmos num canal televisivo, teremos de possuir uma dicção incrível e de saber respirar e tudo o mais. Sei que não nasci com uma voz fantástica como algumas pessoas que admiro, como o Ruben Martins (de quem já falei por aqui) a Joana Vieira ou o Tiago Oliveira (meus colegas de curso), mas de uma coisa tenho a certeza: estou no caminho certo para dar passos em direção onde quero chegar e ir abandonando os meus medos, um a cada dia!


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12 comentários

  1. O teu talento vai eliminar todos os teus medos Maria. Escreves muito bem! Beijinhos 😘

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    1. Obrigada, querida professora! Tenho imensas saudades das suas aulas dinâmicas!
      Mil beijinhos, adoro-a! :D

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  2. Maria, adorei ler este post! Apesar de não gostar de Jornalismo, como já sabes, a rádio ainda é uma das áreas de que me sinto mais próxima dentro do curso - a voz tem um poder enorme!
    Tens toda a razão quando dizes que é necessário dar tempo à voz; com o tempo, vais ver que vais melhorar cada vez mais e brevemente terás uma voz fantástica :)

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  3. Como em tudo na vida só precisas de mais um pouco de treino. Com persistência vais conseguir chegar ao patamar que desejas! Nunca desistas :)

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  4. Maria, foi bom demais ter-te descoberto nesta versão mais pessoal!... Neste teu novo blogue!... Mas continuas com o outro... presumo eu...
    De qualquer forma... já te estou seguindo por aqui!...
    Tenho andado um pouco mais ausente da net, nas últimas semanas, e ainda andarei a meio gás, ao longo do próximo mês... com alguns afazeres pelo meio... mas de qualquer forma, ando a retomar aos poucos, as visitas aos blogues, que por falta de disponibilidade, tive de deixar um pouco para trás, nos últimos tempos...
    De qualquer forma... sempre que der... cá estarei espreitando as tuas novidades... mesmo que demore um pouquinho para aqui chegar...
    Concordo com o que dizes... a voz, é como um instrumento... cujo uso tem de ser treinado, para os fins com que a usamos... cantores treinam a voz... e até jornalistas com anos de trabalho, por vezes trabalham a voz... lembro-me que Alberta Marques Fernandes, se não estou em erro, também trabalhou a sua voz, já depois de vários anos como profissional, pois o público achava que ela falava num tom muito agressivo, e os resultados, notam-se actualmente...
    Sena Santos... teu professor... adorava ouvi-lo na rádio! Que saudades de o ouvir na Antena 1!
    Acho que estás no óptimo caminho... e tens os ensinamentos de óptimos profissionais à tua volta!...
    Desejo que tudo continue correndo da melhor forma... e aos poucos irás dominar melhor a tua voz, sem qualquer dúvida!...
    Beijinhos! Tudo de bom! Desejando-te um bom resto de domingo, e um óptimo feriado...
    Ana

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  5. "Quando nos casarmos" ahaha :P

    És uma tola :o Adorei a tua voz e agora até já me sinto mais perto de ti :3 Também tenho um problema grave em falar demasiado rápido :P Não creio, no entanto, que seja um problema mas sim uma qualidade. Falar rápido sem tropeçar é difícil para cacete :D

    NEW FASHION POST | And You?! Do You Wear Red or Are You Afraid?
    InstagramFacebook Oficial PageMiguel Gouveia / Blog Pieces Of Me :D

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  6. Tudo na vida se desenvolve e todas as nossas capacidades podem ser trabalhadas e melhoradas! =) Nunca duvides das tuas e podes ir bem longe! =)

    www.anafernandes.ch

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  7. Olá Maria,
    grato pela tua presença no Olhar d'Ouro, mas no fundo, na blogosfera!
    Bonito e interessante este teu desafio. Acho que tem tudo para ser um sucesso!
    Felicidades!
    Até breve.
    bj

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  8. Maria os medos e receios são perfeitamente normais. E a voz trabalha-se. Se gostas, de certeza que vais melhorar e muito.
    Tive a sorte de experimentar a rádio, primeiro durante o curso, na disciplina de jornalismo radiofónico e depois durante um estágio, na rádio de Sesimbra. Nesse ano consegui colaborar com eles durante o verão a fazer os spots noticiosos. Posso dizer-te que adorei a experiência e fiquei com o bichinho.
    Hoje em dia tenho a pancada da voz também... adorava fazer voz off em desenhos animados por exemplo.
    Pega nas tuas certezas e no talento que já tens e pensa que é só o início.
    E agarra todas as oportunidades que aparecerem.
    Beijinhos

    Blogdiariodeumafamilianormal.blogspot.pt

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  9. Confesso que também não gosto nada da minha voz gravada! Fica tão tosca. Mas olha, a tua não está nada mal, até pelo contrário! Estás de parabéns.
    Ter professores profissionais e humildes a ajudar-nos é muito bom e, tal como te disseram, com o tempo chegas lá :)
    Kiss, Mariana Dezolt
    Messy Hair, Don’t Care

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  10. Mia ♥
    Que bom te ver novamente no blog! Você ainda tem o Breakeven Girl ou vai ficar apenas com este blog? Te desejo muito sucesso!!
    Ah, estou pensando em fazer vestibular de Jornalismo esse ano :)

    http://heyimwiththeband.blogspot.com.br/

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