Um cliché idílico: o início do resto da minha vida

By Maria Moreira Rato - abril 18, 2017

  Numa época em que os jornalistas são vistos como alvos a abater, é importante regressar à essência da profissão e entender que somos tudo menos perigosos, mas sim necessários.

  Apesar de frequentar o 2º ano da Licenciatura em Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social (ESCS) e de ainda não possuir a carteira profissional, identifico-me plenamente com os meus colegas. Sinceramente, no fundo, já me considero jornalista, mesmo que me falte muito para lá chegar.
  Lembro-me do 11 de Setembro como se fosse hoje. Na altura, com quatro anos, estava sentada à mesa da casa de jantar, a almoçar com a minha irmã e a minha avó. Subitamente, surgiu uma notícia de última hora e vi nuvens de fumo impressionantes a engolir aquilo que pareciam duas torres. As Torres Gémeas, vim a perceber alguns minutos depois. Um atentado. Al-Qaeda. Palavras-chave que ouvi nas horas e dias seguintes. Nessa semana, no infantário, desenhei duas torres pretas, de forma pueril, algo que se assemelhava a um avião, e pedi a uma das minhas educadoras de infância que escrevesse: “Aconteceu uma desgraça em Nova Iorque”.


Resultado de imagem para 11 de setembro tv

  
  Ao longo do meu percurso escolar, fui-me apercebendo de algumas verdades: ser jornalista é distinguir o certo do errado ou encontrar aquilo que é certo no meio de tudo aquilo que se encontra errado. E também, que ser jornalista é pensar na verdade como algo parcial e não como um todo, é não ser obstinado pela busca da mesma mas sim tentar encontrá-la com racionalidade.
  No verão em que completei 18 anos, tive uma epifania: ser jornalista é estar atualizado vinte e quatro horas por dia e não sabia se estava preparada para tal desafio. Então, instalei as aplicações dos jornais de referência no meu telemóvel e comecei a censurar o jornalismo sensacionalista.
  Li Na Pele de Uma Jihadista e senti um orgulho enorme na protagonista, uma jornalista francesa que, em prol da investigação e da divulgação de informações importantíssimas, colocou e continua a colocar em risco a sua vida.
  Por influência das vozes alheias que ecoavam na minha mente, ingressei na licenciatura em Ciências da Comunicação, com a desculpa de que seria “um curso muito mais abrangente” (após ter colocado Jornalismo como primeira opção uma série de vezes). Duas semanas depois, fui confrontada com o meu erro crasso e fui para a ESCS, pois ser jornalista é ter uma missão elevada, uma responsabilidade especial e chegar mais longe, todos os dias. E se era isso que eu pretendia fazer, então esta escola cujo lema é Se formos apenas mais uma escola, seremos uma escola a mais, seria o sítio certo.
  Ser jornalista é ter um gravador na mão e uma câmara noutra, abordar as pessoas e vê-las fugirem de nós, dando respostas típicas como “O seu colega já falou comigo hoje de manhã”, mas também é rever mil vezes a entrevista da jornalista Rima Karaki a um radical islâmico e ter a plena noção de que ela foi absolutamente corajosa ao ordenar que ele se calasse em direto e não permitir que a entrevista continuasse sendo que ele a desrespeitou desde o primeiro minuto.
  Ser jornalista é ver o Spotlight e pensar: "É isto que quero fazer: trabalhar arduamente e dar a conhecer a podridão da sociedade, em todos os seus meandros". É não ceder à pressão nem aos pedidos semelhantes a "Por favor, não escrevas isso, podes mudar antes para x ou y?". É realizar aquilo que devemos e não aquilo que nos pedem só porque lhes é mais favorável.

Imagem relacionada

  Não é nem nunca será um conto de fadas e para isso basta recorrer a dois exemplos recentes: no dia 3 de abril, Oscar Cantu Murguia, diretor do jornal mexicano Norte, anunciou o encerramento do mesmo devido “à falta de segurança para exercer o jornalismo crítico”. De facto, o assassinato de vários jornalistas que se tem verificado no país é alarmante, sendo que 38 foram mortos desde 1992. Portanto, não se pode exercer a liberdade de expressão. Mas desengane-se quem pensa que essa realidade é longínqua – no passado dia 30 de março, um repórter de imagem e uma redatora da RTP foram agredidos numa escola em Marvila. E porquê? Por estarem a investigar a violação de um menor. E, claro, como divulgariam informação nada agradável, os familiares do aluno suspeito do ato hediondo decidiram tentar calá-lo.
  Otto Bismarck, o “chanceler de ferro”, afirmava que “o jornalista é alguém que errou na sua vocação”. Para mim, acontece precisamente o oposto: não se é jornalista sem um enorme talento, é preciso ser multifacetado e conseguir saber um pouco de tudo, mesmo que por vezes não se saiba nada, pois dominamos a arte de nos informarmos diariamente.
  Por fim, só quero apelar ao respeito pelos jornalistas: na nossa condição de profissionais que devem ouvir e compreender os cidadãos e transmitir-lhes a perspetiva mais imparcial de cada acontecimento, colocamos sempre os seus interesses acima dos nossos. Creio que está na altura de exigirmos algum reconhecimento…!

  • Share:

You Might Also Like

3 comentários

  1. Muito bom Lena...fiquei MT satisfeito por conhecer esta sua vertente. FORÇA, MTa. Força, NÃO desista, NUNCA e a Verdade é a Liberdade devem ser a sua estrada.
    Um bji deste seu Amigo Nobre Da Costa

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Boa tarde, Sr. Nobre da Costa!
      Antes de mais, agradeço o seu comentário muito simpático! :)
      A verdade é que este blogue não é da minha mãe, mas sim meu! Sou filha da Lena, ahah.

      Obrigada e cumprimentos,
      Maria Moreira Rato

      Eliminar
  2. Adorei cada palavra!
    Infelizmente é uma profissão que vai viver sempre o estigma da censura (nas mais variadas maneiras).

    E a sério que tinhas quatro anos no 11 de Setembro?!?!!!! Fizeste-me sentir velha - eu estava no segundo ano do curso quando a tragédia aconteceu. E escusado será dizer que o tratamento da notícia foi objecto de estudo durante todo o ano (E nos seguintes, claro).
    Gostei que usassem a expressão "tive uma epifania". No trabalho sou conhecida como a mulher das epifanias desde que me ouviram dizer isso! 😁😁

    Beijinhos

    Blogdiariodeumafamilianormal.blogspot.pt

    ResponderEliminar