Sobre o Dia Mundial do Livro e a escritora-jornalista que mais me inspira

By Maria Moreira Rato - abril 24, 2017

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  "Para mim, um livro é um amigo. Acompanha-me nas horas tristes, de solidão e profunda melancolia. Quando me encontro feliz, a luz proveniente daquela aglomeração delicada e mágica de frases assemelha-se a uma suave melodia" - é este o primeiro parágrafo do texto Um livro, Um amigo, que escrevi aos catorze anos.
  Há alguns Natais atrás, como quem diz, há celebração de alguns nascimentos de Jesus atrás, recebi um embrulho da Fnac, da parte de uns primos. Pensei: "Certamente que me oferecerão um livro". Rasguei o embrulho e deparei-me com o Lugares Escuros da Gillian Flynn. Há meses que me encontrava num dilema: "Devo lê-lo ou não?", mas ia lendo outras obras e o seu lugar era substituído por outros autores e outras autoras, de modo que no dia seguinte, sentei-me no sofá e, com as persianas da sala entreabertas, dei vários passos em frente no mundo misterioso e nada usual da escritora americana, que conjuga o poder da mente com a capacidade humana de praticar o mal de uma forma que nunca deixará de me arrepiar. 
  Gillian nasceu e cresceu em Kansas City, no Missouri, e o estado do centro-oeste americano é sempre o espaço escolhido pela autora para que as suas personagens vivam as mais variadas peripécias. Quando terminei de ler o livro onde Flynn criou uma teia de acontecimentos trágicos no seio da família Day, devo admitir que fiquei obcecada pela sua escrita fascinante. Nesse próprio dia, corri até à Bertrand e olhei desesperadamente para as prateleiras da Literatura Estrangeira até que os meus olhos pousaram no Em Parte Incerta. Devorei-o nas férias da Páscoa do 11º ano e já tinha ouvido dizer, inúmeras vezes até, que Gillian tinha o poder de demonstrar cruelmente que as mulheres não são inocentes - no entanto, ao folhear avidamente cada página, apercebi-me com cada pedacinho de mim que ela não fazia qualquer distinção entre os géneros feminino e masculino naquilo que dizia respeito à capacidade de se ser mesquinho, diabólico, hipócrita... E adorei. Adorei porque a representação da realidade em Flynn é nua e o olhar que nos passa é aquele através do qual analisa tudo o que a rodeia.

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  Creio que o facto de o seu pai ser professor de cinema foi um grande contributo para a cinematografia presente na narrativa de Gillian: porque ela não explica que uma personagem atravessa uma rua, por exemplo. Conseguimos imaginar os seus pés a levantarem-se lentamente e os sapatos a criarem pó na estrada alcatroada. Todo este jogo de movimentos que estão sempre em sincronia e criam um suspense que nos deixa viciados e à espera de mais e mais pode também dever-se a outros dois fatores: em criança, era muito tímida e a escrita e a literatura eram o seu escape. Mais: licenciou-se em Inglês e Jornalismo na Universidade do Kansas, curso que, sem dúvida alguma, lhe deu mais fôlego e capacidade para ver o mundo mais analiticamente. 
  Por falar em jornalismo, no verão antes de ingressar no Ensino Superior, foi lançada a versão portuguesa de Sharp Objects e, sem demora, comprei-a. Com Objetos Cortantes, conheci o lado mais factual, descritivo e jornalístico de Gillian, na medida em que a protagonista desta trama, Camille, é uma repórter de um jornal sem prestígio de Chicago e regressa à sua cidade-natal para investigar o homicídio de duas raparigas. Para quem afirma não ter "aptidão" para realizar relatórios policiais, a escritora norte-americana domina o crime como poucos! Posso dizer que este livro me mudou, pois os conteúdos trabalhados são tão fortes e a narrativa é tão envolvente que a minha vontade de sair para a rua e descobrir histórias inimagináveis cresceu, cresceu e cresceu! 
  Como tenho a tendência para ser um pouco stalker (não me julguem, por favor!) e ter a necessidade de conhecer tudo acerca de quem realmente gosto e que me inspira, continuei a pesquisar acerca da vida de Gillian e constatei que, em 1997 (no ano em que nasci, somos tão queridas, não somos!? Completamente soulmates! Pronto, podem esquecer esta parte menos séria) terminou o seu mestrado em Jornalismo na Medill School of Journalism.



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  Após a leitura destes três livros assoberbantes, pensei: "Esta é a minha escritora preferida e pode lançar livros de porcaria, algo que duvido seriamente que aconteça mas enfim, que nada me fará retirá-la do pedestal em que a coloquei!". E foi aí que surgiu Pequenos Vigaristas, um conjunto de oitenta páginas tão intensas onde o comportamento humano, a prostituição, a mentira e o espiritismo são explorados de uma maneira completa, talvez como a que esperaríamos ver num livro de duzentas ou trezentas páginas.
  A norte-americana dá-nos lições atrás de lições, mas há citações que nunca esquecerei, como: "My mother had always told her kids: if you're about to do something, and you want to know if it's a bad idea, imagine seeing it printed in the paper for all the world to see" ou "Sometimes if you let people do things to you, you're really doing it to them".
  Uma hora e meia após o término do Dia Mundial do Livro, só poderia estar a publicar um post acerca da mulher que, aquando da sua adolescência, tinha trabalhos estranhos como um onde se vestia de cone de iogurte que usava um smoking. E sabem que mais? Adorei fazer isto!

 P.S. O texto que escrevi inocentemente há cinco anos terminava desta forma. Com quase vinte anos, continuo a pensar assim e a respirar literatura: "A leitura é desenvolvida e essa iniciativa deve partir de nós. Não devemos ser obrigados a pegar num livro e lê-lo rapidamente sem entender nada ou passar horas a tentar gostar minimamente de uma história quando apenas nos apetece fazer outra coisa.
  Ler é como uma árvore que deve ser regada diariamente e cuidada com carinho, para, um dia mais tarde, dar os seus frutos".
  
  

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5 comentários

  1. És uma linda :')

    Tinha tantas saudades tuas e de te ler. Juro!!
    Não conhecia esta jornalista mas fiquei entusiasmado!!! :D Continua com este teu sonho <3

    NEW TIPS POST | Acaba JÁ com o FRIZZ do cabelo :o
    InstagramFacebook Oficial PageMiguel Gouveia / Blog Pieces Of Me :D

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  2. Até me estou a sentir mal por nunca ter lido nada desta autora, vou ter que remediar isso (;

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  3. Olha, olha, quem é ela :)
    Nunca li nada dela, embora reconheça um título dum filme que gostei muito.

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  4. É incrível como deixas sempre o meu coração super quentinho! Nunca deixes de ser a pessoa que és, sim?! Temos de voltar à carga. Morro de saudades <3

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    InstagramFacebook Oficial PageMiguel Gouveia / Blog Pieces Of Me :D

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  5. Conseguiste deixar-me curiosa!!

    Blogdiariodeumafamilianormal.blogspot.pt

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