Benfica a meia-luz: do último 750 da noite a uma descoberta surpreendente

By Maria Moreira Rato - abril 20, 2017

Por vezes, não há alcatrão que chegue nem movimentos suficientemente ágeis para guardar em fotografia a rapidez do autocarro 750, que corre freneticamente, todos os dias, do Oriente a Algés e vice-versa.
Maria Moreira Rato, 2017
  
  Numa noite algo friorenta de março, onde se sentia o leve crepitar das folhas das árvores e o frenesim urbano dava lugar à acalmia, eu e um dos meus melhores amigos, o André Medina, embarcámos numa aventura: tínhamos de contar uma história acerca da Estrada de Benfica, para a cadeira de Ateliê de Jornalismo Radiofónico, no âmbito do projeto Estrada de Benfica
  Por mero acaso, talvez infelicidade do destino, os gravadores, todos mesmo, imaginem, haviam sido requisitados na nossa faculdade devido à Futurália e o nosso plano saiu gorado. A partir daí, desistimos da captação de som e passámos a outra vertente da ação, comumente designada por plano B: "E se fizermos uma reportagem fotográfica? Não, espera, e se a completarmos com uma entrevista a alguém mesmo interessante!?".
  Fizemos batota e começámos a percorrer o arruamento que se inicia em Sete Rios na Estação de Benfica e, verdade seja dita, também não o completámos até às Portas de Benfica, na Amadora. No entanto, não foi necessário gastar as solas dos nossos sapatos: a personagem única que tanto almejávamos encontrava-se a terminar o seu expediente no nº92 da Avenida Gomes Pereira. Lá fora, lia-se: My Bernina - Lisboa. Dentro do estabelecimento, estava José Bernardino, um homem incomum.




José Bernardino, gerente da My Bernina - Lisboa.
André Medina, 2017

  Junto a uma máquina de costura, apagava o interruptor de um pequeno candeeiro. Cumprimentou-nos amavelmente e, quem passar por ele na rua, não diz que aos 33 anos, este homem se dedica à divulgação da Bernina, empresa que surgiu na Suíça em 1893.
  José teve conhecimento da marca helvética em 2001, com 17 anos, aquando do seu primeiro trabalho a tempo inteiro: "E há três anos a minha vida mudou, para melhor. Vim para Lisboa, o meu filho nasceu um ano depois e decidi abrir uma loja aqui, sabendo que a nossa capital estava mal servida de Bernina", revelou, com as faces ruborizadas.
  Curiosamente, nunca foi apaixonado pelo mundo do corte e costura e não se imaginava parte integrante do mesmo. Os amigos faziam troça dele por afinar máquinas, mas o então aprendiz ignorava esses comentários: "Tive um professor exemplar, Francisco Manuel de Oliveira. Ensinou-me durante dois anos e passei a apreciar as máquinas de costura e a sua ciência. Infelizmente, o meu mestre foi diagnosticado com cancro no intestino. Desde então, assumi o papel de líder na área e naturalmente fui fazendo uma homenagem interior (nossa-minha e ao professor)", afirmou com convicção, sentindo-se visivelmente mais descontraído.
  Afirma ter começado a sua atividade neste ramo "por necessidade" e ter saído da escola "por opção". Mas quem o vê a interagir com os clientes sempre com um sorriso afável e a responder a todos os comentários nas redes sociais de um modo impressionante, confirma a autodescrição que José Bernardino traça: "Graças à pessoa que sou, empenhado, trabalhador, simpático, sem querer gabar-me, a loja está em crescimento e o próximo projeto é restaurar o conceito antigo da Bernina: fazer assistência ao domicílio e, neste caso, manter a loja!".
  O gerente da Bernina confessa que quando abriu o espaço, pensou somente em vender máquinas de costura e prestar assistência técnica, mas decidiu ter mais marcas e o negócio tem vindo a crescer desde que implementou a Costura Urbana, não restringindo o leque de escolhas ao cliente.
  Falou-nos numa peculiar carrinha pão de forma e na realização de workshops por todo o país. Mas como o segredo é a alma do negócio, José levantou pouco o pano desse trabalho em desenvolvimento: "Esse projeto está ainda no inicio. Ainda não fizemos nenhuma viagem com a roulotte, mas já está em nossa posse. No entanto é um projeto só para a Costura Urbana".
José Bernardino na celebração do primeiro aniversário da My Bernina - Lisboa,
em novembro do ano passado.
Página Oficial da My Bernina - Lisboa
  Naquilo que concerne às críticas, mentes fechadas e desigualdade de género, José Bernardino foi direto: "A partir da minha experiência, e com a evolução que temos tido, a resposta é bastante positiva. Nós não costuramos, nem sabemos, o que fazemos é dar assistência técnica, apoio pós-venda e formação na utilização e exploração das máquinas de costura. Posso gabar-me de que todo o nosso crescimento e fama deve-se ao facto de ser sempre prestável, atencioso, e disponível para qualquer assunto do tema. Todos os nossos clientes ficam satisfeitos e recomendam. Normalmente o que acontece, em 90% dos casos, quando me veem pela primeira vez, esperam sempre deparar-se com uma mulher ou uma pessoa mais velha e ficam admirados".
  "Há cerca de um ano, quando começámos com a Costura Urbana, tenho-me envolvido com as outras marcas e outros fornecedores e a resposta tem sido positiva, até as próprias margens de comissão são melhores. De certa forma, a Bernina tem ficado de lado e temos dado atenção a outras marcas com o mesmo potencial. Mas nunca desfazemos da marca e continuamos a atribuir-lhe a mesma importância", explicitou, à medida em que ajeitava o cabelo e perguntava se precisávamos de mais respostas, oferecendo-se para nos mostrar melhor o espaço no dia seguinte.
  Acredita que Benfica é um sítio propício para o negócio, "mas a intenção de expandir não está fora de questão", rematou o sempre otimista líder deste cantinho peculiar.
  Quem passa pela Bernina pode achar que o nome foi criado a partir do apelido de José Bernardino - o que não seria mal pensado, já que está a transmitir este "bichinho" ao filho: "Costumo dizer que tenho pena de que os meus pais não tivessem um negócio para eu poder dar seguimento. Agora tenho esperança de que o meu filho tenha o mesmo gosto que eu relativamente à My Bernina. No entanto, irei incentivá-lo para que siga o que for melhor para ele, explicando que terá sempre a alternativa do negócio do pai".
  Guardou as ferramentas, desligou todas as máquinas e apagou as luzes. Quando a porta principal da My Bernina se fechou para que José Bernardino pudesse ter o seu merecido descanso, a Estrada de Benfica perdeu a dinâmica que o local onde residem o seu talento e os seus sonhos lhe confere. 
  A placa "Aberto" foi substituída pela triste palavra "Fechado", mas dali a umas horas, José estaria de regresso, pronto para aconselhar os seus e as suas clientes, com um enorme sorriso estampado no rosto.

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1 comentários

  1. Muito bom!
    Parabéns 😉

    Blogdiariodeumafamilianormal.blogspot.pt

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